quinta-feira, 10 de setembro de 2015

IARA


Na época em que os índios tomavam conta de toda a terra, tomavam conta de todas as Américas, e olha lá se não dominavam muito mais ainda, naquele tempo existia índios muito forte, muito experiente na caça e na guerra. Conheciam como ninguém a mata, os rios, as montanhas. Sabiam e não temiam bicho algum, seja grande, forte ou feroz. Da terra ou das águas, não temiam nada.
Existia um ritual de passagem para os jovens, quando se tornavam finalmente como adultos e guerreiros de verdade. Amarrado numa árvore, o menino candidato a valente da tribo, tinha que deixar “tanajuras” subirem sobre seu corpo. Os índios mais velhos ficavam vigilante para não deixar que formigas entrassem em seu nariz e ouvidos. Os olhos e a boca era por conta do indiozinho valente. Tinha de ficar assim pelo menos meio dia mas, havia meninos que conseguiam ficar quase o dia todo. No outro dia já era considerado adulto e guerreiro valente. Aqui existe um mistério que aprendiam com o ritual: quanto mais medo, mais as “tanajuras” mordiam. Quanto mais calmo e valente, mais calma ficavam as formigas.
Também naquela época existia uma índia chamada IARA, que não passou pelo ritual para ser considerada adulta, porque era mulher. No entanto guerreava de igual para igual com os homens. Em tudo que ela competia com algum guerreiro, sempre vencia. Quando os guerreiros saiam para caçar, ela saía junto e demonstrava uma prática ferrenha não perdendo caça alguma. Com corridas velozes, flechas certeiras, força sem igual, ia deixando seus companheiros homens admirados e com vergonha de sempre perderem para uma mulher. O tempo foi passando e a admiração dos guerreiros foi se tornando em em inveja e ira. Mas os que mais se sentiam envergonhados era seus próprios irmãos. Quatro guerreiros fortes e valentes que não se conformavam com a humilhação que sua irmã lhes causava. Eram os quatro e a IARA filhos do Pajé da tribo.
Uma noite estava IARA deitada na praia do rio Solimões contemplando Jaci, que para os índios é a lua, contemplava a beleza do luar tremelicando seu reflexo na água, quando três irmãos dela saíram da mata correndo com punhais na mão, tentavam-lhe fazer uma emboscada. Pensando rápido, IARA se jogou na correnteza do rio que descia cada vez mais velos de encontro com outro rio ainda mais violento que é o Rio Negro.
Nesse encontro das águas frias e barrentas do rio Solimões e as águas quentes e negras do Rio Negro, deslizam lado a lado suavemente formando um terceiro rio, o Rio Amazonas, que segue sem misturar suas águas, por quilômetros adiante.
A índia nadou o mais rápido que pode para o meio do rio onde é bastante fundo e perigoso. Como nadava muito melhor que seus irmãos, não teve medo. O problema é que seus irmãos também sabiam nadar bem, e foram atrás dela,com punhais presos à boca. Por mais que ela nadasse de um lado para o outro no meio do rio, afundasse e voltasse, cruzasse do outro lado, que quase não se via a margem a não ser por umas copinhas de árvores lá adiante, eles estavam determinados a matar sua irmã ali mesmo e nunca mais sofrer humilhações.
Num desses mergulhos ela sumiu de vista dos guerreiros, pois conseguia segurar o ar nos pulmões por muito tempo, coisa que nenhum deles conseguia. Por debaixo da água, nadou até encontrar os pés de um deles e agarrou-os com toda força que tinha, puxando para baixo. Foi afundando e arrastando o índio até que tocaram o chão do rio lá em baixo. Ficou agarrada em suas pernas impedindo que ele voltasse para respirar até que se afogou.
Voltou lá pra cima, respirou várias vezes e afundou de novo, agarrando as pernas de mais um e arrastando lá pro fundo do rio. E assim ela fez até que não sobrou mais nenhum. Saiu do rio assustada e com muita raiva por tentarem matá-la.
Chorando e com mágoa no coração, voltou para sua tribo e se jogou no chão da sua oca aos prantos de choro. Mas não demorou muito, escutou uma buia que vinha lá de fora, no pátio da aldeia. Quando saiu para ver o que era, a tribo inteira havia cercado a oca em que ela estava e vinha fechando o cerco cada vez mais.
Dos quatro irmãos, um ficou escondido na mata enquanto os outros três tentaram matar IARA, quando ele percebeu que os outros haviam morrido, retornou correndo e contou ao seu pai, o pajé da tribo. O pajé possuído por uma ira tal, convocou toda a tribo para pegarem a índia assassina e a amarrarem.
Depois que a amordaçaram, ergueram-na acima de suas cabeças e levaram a pobre desesperada IARA até o encontro do Rios Negro com o Solimões para ser jogada ali. Só que bem onde seria jogada, exatamente no meios dos dois rios, é aonde acontece a mágica da natureza! É bem ali que as águas não conseguem se misturar! É bem ali que a luz da lua se divide. Metade dela luz branca, metade del luz negra. É bem ali que nasce o Rio Amazonas, o maior do mundo.
Quando jogaram ela no meio do encontro das águas, os peixes dos dois rios vieram grudando em suas pernas e carregando ela cada vez mais para baixo, cada vez mais para o fundo.
À medida que se ia afundando, suas pernas iam grudando uma à outra, e quanto mais os peixes puxavam seus pés, mais esticados ficavam, até que se tornaram como barbatanas. As cordas finalmente escorregaram do seu corpo e ela pode sair nadando tal qual um peixe, ou melhor “uma peixa” , para bem longe dali.
Depois daquele dia, a partir daquele momento, IARA passou a ter uma mágoa profunda dos homens. Uma raiva escondida pela sua beleza de sereia. Quando um pescador topar com ela, é certo que não poderá mais se livrar dos seus encantos. Se a ver, simplesmente ver, ficará abobalhado com o feitiço dos seus olhos. E por mais que feche os olhos e fuja. Sua imagem ficará grudada na sua cabeça enlouquecendo-o, até que volte ao rio encontrar com ela.
Ela te levará para o fundo do rio. Nunca mais te encontrarão. Nunca mais te verão. Dizem uns que ela te levará como noivo, e casará contigo, e será um peixe para serviços d ela.
Mas na realidade é que ela afoga suas vítimas agarrando-os pelos pés e puxando para o fundo do rio. Lá ela devora os homens, ela come todinho eles, de pura raiva.

Eber

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Conto Dinâmica


Furinhos no Céu

No tempo em que os homens falavam e os bichos escutavam. Quando a baleia ainda chamava a aranha de comadre, e a lua vinha até a terra ensinar os homens. Naquele tempo os adultos não podiam andar eretos. Somente curvados. Para conversarem, era somente olhando para os pés uns dos outros, porque se tentassem olhar no rosto do colega, dava uma tremenda dor no pescoço. Sem falar das cabeçadas em tudo e em todos, pois não podiam olhar para frente...

Pois o céu era muito baixo!

Os únicos que andavam livres e felizes, sem cabeçada, sem dor no pescoço e completamente em pé, eram as crianças. Corriam, pulavam, rolavam, brincavam do que quisessem pois para elas não havia dor alguma.
Um dia, um menino(a) muito inteligente convidou o resto da criançada para cutucarem o céu com taquaras de bambu.

E o menino(a) começou a entregar taquaras pra todos os colegas,
(comece a entregar varas imaginárias aos colegas da frente)

E pediu para quem fosse pegando entregassem aos demais,
(peça para que cada um vá passando varas para os demais colegas)

E pediu que passassem para os colegas dos lados.
(insista que ninguém fique sem sua vara de bambu, ou taquara)

- Segurando também a sua vara de bambu “continue o conto” -

Então o menino segurou bem firme sua taquara, apontando pro céu gritou para todos...
- É agora?... - JÁ – (fale alto e faça o gesto de cutucar o céu com vontade, fazendo com que todos façam o mesmo)

Então o céu subiu só um pouquinho. (mostre com as mãos a quantia que o céu subiu)

Então o menino gritou novamente...
- É agora?... - JÁ – (fale mais alto e faça o gesto de cutucar o céu com mais vontade)

Então o céu subiu um tantão. (mostre com as mãos a quantia que o céu subiu)

Então o menino gritou novamente...
- É agora?... - JÁ – (grite e faça o gesto de cutucar o céu com mais vontade ainda dando um pulinho, antes de terminar a gritaria, comece a falar o conto)

Nesse momento, o céu fez VUUUCH (jogue as mãos para cima e “olhe” para cima) e foi parar lá em cima onde está agora.
Quando os homens, devagarzinho, foram se endireitando e conseguindo olhar em pé, também conseguiram olhar para cima, e o que viram foi um céu todo furadinho. De dentro dos furos escapava luzes. “E até hoje, nós temos alguma luz (mostre a sua cabeça) por causa das crianças”

Recontado pelo Eber
(contista da terra e da vida.blogspor.com)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Viva Cada Dia Como Se Nascesse Hoje!



       Sabe aquela frase “viva cada dia como se fosse o último”? Pois é. Pensando no último dia de nossas vidas, aquela em que você tem total consciência de que o que foi feito fez. O que é pra ser feito, não fará mais. O que continuará para o futuro, não será feito pelas suas mãos. O que resta então? Viver seu último dia em paz, terminá-lo em paz.
        De repente, algumas coisas que não tinham valor nenhum, durante a vida toda, nessa hora tornam-se de um valor absurdo, mas não avança mais que isso, pois não há mais tempo. Basta o reconhecimento por si só, então, tenha paz.
        Poderia eu divagar no tema por horas, mas prefiro ser mais breve, pois o presente que estou vivendo é o agora. E é esta dádiva que devo valorizar. O meu presente. O meu agora. A minha vida neste momento. E com certeza não viverei ele como se fosse meu último,
        Deus nos recomendou dizendo assim: não penseis no vosso futuro, pois ele está na minha mão. Eu sou o Deus do já. Eu sou o agora. Concluindo, o futuro garantido por Deus, é na verdade os vários presentes que temos vividos todos os dias, em todos os momentos. Vivendo esses dias bem, Deus nos dará das suas mãos (confirmará) um futuro bom, vivendo esses dias não muito bem, Deus nos dará das suas mãos (confirmará) um futuro mau.
        Proponho uma nova frase: “viva cada dia como se fosse seu primeiro, pois todos os dias você acerta”.
Descobrindo tudo, vendo tudo, sentindo tudo: Comesse seu dia com um berro, um grito de liberdade. Abra os braços como que se quisesse alcançar os céus. Espreguisse-se e dispare um gemido bem alto. Aí verás e sentirás que o nascimento do seu dia presente será uma dádiva a ser zelada, e um futuro a ser ganho com requintes.
        Agora, se começar seu dia como um que já acabou, pensando que não haverá mais nada depois dele, nem outro dia, nem futuro... Querer resolver tudo no desespero pensando que o hoje é curto demais para se perder tempo, então não haverá como zelar de nada que aconteça a cada momento, o futuro será incerto sempre, e ganho...?(que requinte?).

        Uma lenda nos ensina que um poderoso monarca, cuja glória não havia reino que rivaliza-se, nem poder e majestade que se iguala-se, sendo ele humano como todos os demais na terra, entediava-se dos seus vultosos dias. Nada lhe chamava atenção, nada lhe causava curiosidade, nada lhe transmitia alegria, seus mais ínfimos desejos, ou seus mais poderosos mandos eram satisfeitos quase que instantaneamente sem que se tivesse um mínimo de esforço de sua parte. As belezas do reino, toda a sua glória e majestade que deixava os súditos e visitantes boquiabertos, não lhe significava nada, Um pássaro colorido voando e cantando ou uma cachoeira de águas cintilantes, repletos de dourados, para ele não lhe servia para cousa alguma. Vivia cada dia da sua vida moribundo, triste, totalmente avesso aos acontecimentos, sem vontade da vida.
        Começou a cair em si a verdadeira inutilidade do seu ser, sem que pudesse fazer nada. Começara a enlouquecer!
        Num dos seus dias de asseio, o barbeiro particular fazia-lhe a barba e ele sem nem pensar direito o que dizia, deu-lhe uma ordem: “daqui uns dias, qualquer dia que queira, quando estiver fazendo minha barba, ou aparando meu bigode, ou ainda retocando as beiras do cabelo, corte-me a garganta, por favor”.
        Uma ordem poderosa, dada por alguém poderoso! Nunca nem jamais poderia ser desobedecida!
        Conforme os dias foram passando, o poderoso monarca não se preocupava com a ordem que dera, pois sabia que não se cumpriria de imediato. Conforme foi-se avançando os dias, para cada vez que chegava o barbeiro para fazer-lhe os bigodes, ou outro dia para retocar-lhe a barba, ou ainda mais outro dia para tirar-lhe os pelos do nariz e das orelhas..., mais preocupado ficava. Começou a perguntar para si mesmo se seu dia não seria hoje, ou se não veria o amanhã? Quanto mais os dias passavam, mais se arrastava em sua angustia de esperar o dia próximo.
        O monarca começou a notar seus dias. Vivia cada um como se tivesse “nascido de novo”, e dava graças por poder ver o que antes não via, sentir o que antes era tudo morto. Pela manhã quando via um passarinho voando perto de sua janela, corria para apreciar suas cores, seu bater rápido de assas, seu canto formidável. Detinha-se tempo contemplando o curso dos bandos. Um desses dias passeando pelos bosques, não deixava de notar a exuberância das árvores, o esplendor das matas e penhascos, o frescor e aroma do vento. Até que encontrou aquela cachoeira! Fascinou-se pelo brilho das águas que lhe segava os olhos, pela fartura de vida e belezas sem igual que vivia dentro e ao redor daquela cachoeira cintilante..., então chorou! Descobriu que descobria um mundo maravilhoso que nunca notara! Entendeu que nascia a cada dia descobrindo novas e novidades a cada momento em que respirava. Assim revivia (renascia) todos os dias.
        Então tudo se inverteu, pois não queria mais morrer. Ansiava por viver mais aquele dia, por viver mais dias. Agonizava-se quando o barbeiro vinha com a navalha em riste tocando seu pescoço. Mesmo dando nova ordem para que este jamais lhe cortasse a garganta, a angustia da dúvida lhe consumia.
        Tratou de trocar de barbeiro, e passou a valorizar a vida, dar valor aos pequenos atos de sua existência como nunca tivera feito antes.

Eber

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Macumba pro Lobisomem

 Uma coisa que ninguém sabe é que Piên já teve bruxa, não aquelas feiosas verruguentas, comedoras de criancinhas, ou as importadas que voam de vassouras com chapelões enormes, mas uma velha até que bem simpática procurada por muita gente.
Procuravam dona Grena Machado para as mais variadas situações. Desde tirar quebrante de neném, arranjar namorados bonitões para as moças faceiras até esconjurar pragas das plantações dos colonos desesperados e espantar “encostos” de pessoas ou residências, desses espíritos grudentos que quando agarram no pé da gente, não largam mais.
Dona Grena, ouvia-se falar, tinha algumas irmãs espalhadas pela região: dona Grena Ponta-Aguda morou em Agudos, dona Grena Tapuia próximo de Quitandinha, dona Grena Matados era muito afamada em Lajeado dos Mortos, mas foram sumindo sem que ninguém soubesse explicar para onde foram ou o que aconteceu.
A velhinha morava sozinha e a maioria dos seus despachos ou trabalhos fazia em casa, recebendo todos ali mesmo como se fosse consulta médica, por isso nunca se ausentava de casa, somente quando precisava comprar alguma coisa na feira é que saia, mas voltava rapidinho.
Sua adorável companhia de todo dia era uma cachorrada sem fim. Muitos mesmo! A matilha era enorme e todos vira-latas, mas muitíssimos obedientes à sua dona que nunca se esquecia de dar restos de comidas com animais pequenos descarnados misturados a ossos. Sempre havia muito osso para a cachorrada.
Dona Grena Machado começou a ficar preocupada com seus companheiros de estimação, porque na hora de comer, seja durante a tarde ou à noite alta, faziam um alarido danado latindo e correndo como desesperados, além de que ela notava que emagreciam a cada dia. Reclamou para seu compadre, que lhe era de muita estima. Este estava sempre por ali prestando algum servicinho em favor de fumo ou dum bom papo com dona Grena, principalmente quando o assunto era sobre seus trabalhos de magia, que cá entre nós, chamaremos de simpatias simpáticas, está certo?
A única coisa que ouviu como resposta ao assunto foi que os animais são barulhentos mesmo, e só. Ficou assim.
Certo dia, dona Grena fez uma experiência. Colocou bastante osso em meio à comida e levou lá para o meio da estrada onde era o lugar mais limpo de mato e bem iluminado pela lua para poder ver bem o que acontecia e ficou vigiando. Enquanto a cachorrada comia, veio saindo do mato, do outro lado da estrada, um cachorrão enorme, extremamente peludo e orelhudo, garras compridíssimas e passos lentos. À medida que foi se aproximando da comida os cachorros foram se afastando e deixando tudo para ele.
Tão logo terminou de comer voltou para o mato com todos os cachorros fazendo o maior escarcéu à sua volta. No outro dia era quaresma e segundo as tradições bruxais, dona Grená sabia que esse dia é que os feitiços são mais fortes, então preparou uma armadilha.
Com espinheiros de roseta e losna amarga, tudo bem seco, fez macumba num pé de Cinamomo. Colocou tudo rodeando o tronco e com três velas, uma vermelha, uma preta e outra amarela, deixou que queimassem até ao fim. Tinha de ser tudo durante a noite diante da luz da lua. Quando as velas já chegavam ao fim, o fogo pegou nas ervas seca e fez muita fumaça, fumaça que iluminada pela luz da lua tornava-se muito branca, subindo pelo tronco e se espalhando entre as folhas. No final a árvore brilhava com a mesma brancura da fumaça iluminada, ou seja, estava encantada.
No outro dia, o grande dia da quaresma, ela, dona Grena preparou bastante ossos para os cachorros, mas não deu durante aquele dia, deixou para dar durante a noite, pois já desconfiava que quem comandava os cachorros e comia suas comidas era um lobisomem. Fez questão, em uma determinada hora da noite, de por tudo em redor do pé da árvore encantada e ficou de longe espiando.
Como da outra vez, os animais começaram a comer, logo veio surgindo a figura enorme e peluda que foi se apossando da comida enquanto os cachorros se afastavam na maior latição. Só que aconteceu que... quando o lobisomem estava comendo, rosou o corpo na árvore e grudou. Notou que seus pelos estavam presos ao tronco e quando foi querer se livrar, grudou mais ainda e começou a subir como que puxado pela própria árvore. Em meio a urros de ladração o bicho se viu emaranhado nos galhos que se fecharam e o aprisionaram. Aí a velhinha foi dormir seu sono simpático com dois algodõezinhos no ouvido, que é para não ouvir muito barulho àquela noite.
Nossa simpática e mágica vovozinha, no outro dia, levantou feliz, mais descansada, sentindo um jeito alegre no ar. Tomou seu chazinho com torradas, deixou a mesa limpa e foi para o terreiro a fim de dar milho para as galinhas. Quando avistou a árvore de Cinamomo na beira da estrada a qual tinha feito a macumba, lembrou do lobisomem que ainda deveria estar preso lá. Foi conferir.
Qual foi o susto pela visão, e maior ainda o espanto de ver, preso entre os galhos, pelado, seu estimado compadre.
Ao ver dona Grena, suplicou por socorro, pelo que ela lhe explicou que a macumba só passaria se repetisse o trabalho tudo de novo durante a noite. Só então a árvore desencantaria e ele desceria.
Teve de ficar naquela situação durante todo o dia, quando chegou alta hora da noite, dona Grena fez o trabalho novamente e foi dormir. Não quis esperar as velas terminarem de queimar, primeiro por que sendo velhinha, precisava descansar, segundo por que uma senhora de respeito não tinha nada que ficar ali vendo seu compadre descer duma árvore todo pelado. Então disse boa noite e foi dormir.
Mas o verdadeiro receio dela sabem qual era? Que ela viesse a virar Mula-Sem-Cabeça, pois ainda era véspera de quaresma! Ah! E o compadre?

Esse fugiu, depois sumiu,
E nunca ninguém viu...
Foi pra Mongólia?
Perdeu a vitória...
Acabou-se a glória.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O passado (sabe? antes da tecnologia?

Sabe, a muito tempo atrás a tecnologia ainda não era conhecida pelos colonos. Então trabalhavam com cavalos arando a terra. Alqueires e alqueires de chão! Era virado para plantar o milho, o feijão, a batata, e várias outras plantas que cultivavam. E era tudo carpido com inchada!

Os pais levavam seus filhos na roça desde o pequeno até o mais velho. Não existia lei para os menores e assim os pais educavam do seu jeito. Mas havia muito respeito entre pais e filhos, então quando não venciam de capinar a plantação, fazia-se um pecherum: convidavam 20 a 30 pessoas para capinar e deixar a roça limpa do mato. O dono da lavoura sempre tinha uns três ou quatro garrafões de pinga, então o grupo ia carpindo e alguém da família dava um copinho de pinga a cada um. Era o costume para ficar mais forte e puxar a enxada com mais gosto. Assim repetia-se uma 3 vezes por dia.

E assim trabalhavam o dia inteiro e não se cansavam de lutar! Um dos integrantes do grupo começava a cantar uma música bem antiga que se chama cangulo. Um cantava na frente e os outros atrás. O último cangulo que me lembro foi no ano de 1964.

Quando chegava a hora do almoço, todos já estavam cansados e suados pelo calor do sol, então alguém dizia: - chegou a hora boa! – A comida era feita num panelão. Arroz, feijão, galinha caipira, carne de porco e broa feita na fornalha. Também muita verdura. Tudo puro, sem veneno, que delícia!

Também tinha muitos colonos que cuidavam da apicultura. O mel nunca faltava na mesa das famílias.

Terminando de carpir a roça daqui, já passavam pra roça do vizinho, e continuavam até 3 dias sem parar, e na colheita faziam o mesmo. Assim o paiol dos colonos era cheio de mantimento. Não existia muita doença que que hoje existe. Não usavam veneno nem conservante. Era tudo natura!

E hoje a tecnologia esta avançando as lavouras mecanizadas, ninguém pega na inchada, acabou o arado puxado a cavalo. O veneno e a irrigação prevaleceu nas lavouras.

Os filhos sempre acompanhavam seus pais na roça, e era assim. Desde o pequeno a té o mais velho.

As escolas eram distantes, as crianças iam a pé 3-4-kilometros, as vezes mais longe ainda, para estudar.

Mas era muito divertido e os pais diziam que, criança não cansa tem muita energia. Voltava da escola, nossa mãe esperando com aquele almoço saboroso que só ela sabia fazer.

E a luta da vida era assim para todos, não existia meio de transporte escolar.

Também existia muitas famílias pobres e mendingos, que saia pelo mundo em busca de emprego – mas não achavam.

Então chegavam nas casas, pedir um prato de comida ou pão para matar a fome.

Naquela época era muito difícil, mas não existia muitos crimes, nem drogas, as famílias tinham mais sossego, e segurança.

E assim de geração em geração sempre a mudança. Esse é o nosso planeta!

Com Deus na frente, é assim que nós vamos caminhando cada vez melhor.

Obrigada por esta (história),

Que fica na memória;

Ainda que “Quo Vadis”,

Assinado Doris.

terça-feira, 19 de agosto de 2014



Piên é uma cidade mágica! Poderia se dizer "Mundo de Piên", por que neste lugar tudo pode acontecer.
Tal qual o Sítio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato ou no mundo dos Irmãos Grimm, ou ainda, na cidade de Amelin, os contos do Piên são igualmente mágicos, encantadores e passíveis de crença. Ingênua, em sua forma mais natural e pura, quando um "pienense" nos conta seu ocorrido, sua experiência, ou sua visão fantástica, ele nos prova com todas as letras, com todos os verbos, e com toda sua paixão, que é verdade! Jamais, em hipótese alguma, nunca em tua vida, ria duvidando ou fazendo pouco caso deles (moradores de Piên). Pois ao contar seus contos, eles choram, eles riem, eles ficam bravos e furiosos. “Eles te convencem de fato”! Digo ainda mais, eles te levam ao lugar do ocorrido para realmente provar o fato. Seguram objetos, prova fiel nas mãos brandindo-os enquanto narram com eloqüência e ferocidade. Muitos e muitas deles falam de entes queridos, vizinhos, pais, mães, filhos que tiveram envolvimento direto com o fantástico.
Vale aqui um conselho: "Respeite ao ouvir". Porque se você não crer, pelo menos considere que está falando com quem realmente crê. E se estiver vagando por estas bandas, fique bem atento, fique bem atenta, pois de uma maneira ou de outra vai acontecer com você também!

Con te vi!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A estranha caçada (dum tatu?)


Saíram dois amigos para caçar num lugar onde tinha muitos tatus. E naquela época, as famílias comiam muita carne de bichos, mesmo porquê não era proibido caçar.
A maioria era colono e muito pobre. Então o jeito era caçar para trazer carne para a família.
E lá se foram por horas no meio da capoeira. Os dois cachorros que iam na frente já latiram adiante num buraco onde o tatu estava jogando terra pra fora.
Quando Pedro e João chegaram perto, o bicho sumiu, e... só escutaram um gemido dentro do buraco. Os dois amigos se arrepiaram mas não manifestaram nada um para o outro, e continuaram a caçada. Caminharam mais um pouco e os cachorros encontraram mais uma toca de tatu. Ai deu o que falar! Ali naquele buraco os cachorros, mostrando determinação, cavocaram fundo e de repente..., outro gemido e grito! (parecia ser de gente?). O João engatilhou a espingarda, enfiou o cano na garganta do buraco e atirou. O bicho - que era grande - saltou fora pelo outro lado do buraco como um corisco negro e sumiu novamente. E os amigos, um junto do outro, aconteça o que acontecer!
Mas já notaram que não se tratava de um tatu. Era algo diferente porque dentro daquele buraco, que haviam atirado, alguma coisa começou a gemer e a gritar igual gente. Então, naquele momento, o bicho que havia sumido pelos ares da mata, de repente volta! Apareceu de pé em frente deles! O tatu enorme que sumiu tão rápido quanto apareceu, agora se mostrava em pé diante deles. E começou a crescer. E começou a mudar. Até que..., era uma mulher toda de preto-cinza, alta, bem alta, toda ensanguentada e gemia.
Aí os amigos, um olhou para o outro como que dissessem, “vamos sair daqui?” Os cachorros chiavam em roda deles de medo. Deram as costas para a mulher esquisita e morrendo de medo começaram a correr desesperados pela mata. Mas quem diz que achavam a saída? Estava perdidos!
Já era final da madrugada, quase amanhecendo. Cansados, sujos, suados e assustados quando encontraram a estrada, mesmo assim ainda escutavam os gritos ressoando ao longe.
Ninguém descobriu ou soube explicar o que era aquilo, e ainda hoje não há explicação para o fato, mas quem conta jura que o que se passou é verdade, pois essa é uma história de verdadeiro respeito.

(Doris.)

terça-feira, 24 de junho de 2014

Lenda do Lenhador e do Boi-tá-tá


A lenda do lenhador e do boi-tá-tá (Piên – Cachoeirinha – 11-01-2008)

Lá na mata muito longe, existe um lugar chamado Sertão do Gavião. Nesse lugar existe muitas pedras, campos verdes, rios, passaros, borboletas e muitas flôres. Que lugar lindo.
Diz a história que no meio de duas pedras muito altas morava dois boitatas. Quando era lua nova que era muito escuro, saiam de madrugada como duas tochas de fogo que clareava todo o sertão. E se juntavam no ar. Quando isso acontecia, chovia faisca para todos os lados do céu.
Vivia também um homem la no mato que tinha seu rancho na beira do rio. Diziam que ele era um “picador de lenha” por que seu machado se escutava a quilometros de distância.
Um dia o lenhador viu clarear o sertão na mata de fora à fora do céu. Correu ver o que era e foi chegando cada vez mais perto empunhando seu machado nas mãos. E veio ao seu encontro aquelas bolas de fogo. O homem ficou apavorado!
O homem se tramou a correr como um desembestado, e quanto mais corria, mais faiscas de fogo chovia. As faiscas, tal qual labaredas, caiam no chão de terra à sua volta, ricochetiavam e grudavam no machado até que este tomou cor de fogo.
Saiu correndo em direção ao rancho, chegando lá, quis dar uma olhada melhor por que não acreditava no que tinha visto. Ficou mais surpreso ainda, pois seu machado era de ouro puro da lâmina ao cabo! Inteirinho!!
Depois de algus dias, despedui da família e viajou pela floresta por durante uma semana, até que saiu na beira duma rodovia onde se via carros como nuvem de gafanhotos, gente como formigueiros, casas e prédios como uma floresta de pedras sem fim.
Depois de muito andar e especular por quase duas semanas, vendeu seu machado para um colecionador de peças raras tornando-se riquícimo.
Voltou para sua família no meio do matagal, por nome Sertão do Gavião, tomou por posse todas aquelas terras e mata virgem. Seus filhos quando corriam pela mata felizes gostavam de gritar a voz do gavião, e sua família e sua geração foi muito feliz aqui.

Doris

Igreja da maldição


Igreja da maldição (Pien – Cachoeirinha - 14-12-2010)

Meu pai contava que a muitos anos atraz, saíram de casa três amigos a cavalo visitar os parentes em Guarapuava. Naquela época era estrada de chão, empueirada. E havia muitos bugres e índios pelo caminho.
Levaram muitos e muitos dias andando de cavalo até chegar lá. Pelo caminho paravam e faziam um fogo a noite para decançar, e comer o que levavam na mochila.
Outro dia continuavam o caminho, até que um dia havistaram uma igreja abandonada. Já começava a anoitecer e resolveram dormir ali. Tiraram os aperos e os arreios e soltaram os cavalos, que ficaram pastando em roda daquela igreja. Os aperos e os pelegos colocaram dentro no canto da igreja para ali dormirem.
Quando derrepente ouviram barulho no forro e pedrada na igreja, que até os cavalos se assustaram. Caia do forro sapos que saiam pulando. Ouviam gargalhadas sem saber de onde vinha. Quando o dia clareou, pegaram os seus cavalos novamente. No momento que sairam para fora, as portas se fecharam sozinhas, com aquele barulho estranho. Ficaram todos arrepiados e sairam galopando em disparada.
Andaram mais uns 4 kilometros. Encontraram um barzinho pequeno com prateleira de madeira daqueles bem humildes, num vilarejo, com umas 6 ou 8 casas.
Ali chegaram para fazer um lanche. Muitos assustados contaram ao dono do bar o que havia acontecido. Então o dono daquele bar contou que um padre morava ali e dirigia a nossa comunidade. Mas não pode ficar mais porque percebeu que naquela igreja havia algo muito estranho. Descobriu que era assombrada. Nem um padre quis ficar ali, por isso ficou abandonada.
Os padres jesuítas falavam há muitos anos atráz que ali onde construiram a igreja era um cemitério. Por isso que está abandonada.
Com muita pressa, os três amigos saíram dalí galopando pela estrada empueirada daquele sertão adentro. Quando chegaram no destino certo, foram recebidos com muita festa.

Doris

A caverna do desespero


A caverna do desespero (Piên – Cachoeirinha - 19-05-2010)

        Havia uma caverna a muitos séculos atrás onde tinha muitas riquezas, ouro prata e diamantes guardados.
       Uma senhora jovem estava passando em frente com sua filha pequena em seus braços quando la de dentro, da caverna ouviu uma voz: entre e apanhe tudo o que quiser. Mas não esqueça o principal, sua filha. A porta abriu e ela entrou, fascinada com o encanto da daquela riqueza, deixou sua filha no chão, e começou a pegar tudo o que podia.
      De repente a voz falou novamente - você só tem oito minutos. Dai a porta fechará para sempre - Passado os oito minutos ela saiu carregada com ouro diamante e prata. A porta fechou para sempre. Quando estava fora escutou o choro da criança. Era tarde de mais.
     A riqueza durou pouco. Mas o desespero daquela mãe durou para toda a vida.
     - Assim é a nossa vida, podemos viver 80, 100 anos, mas não devemos de esquecer o bem maior com DEUS: O amor ao próximo! Assim estaremos sempre de bem com a vida.

Doris

Encontro com a mula


Encontro com a mula (Piên – Cachoeirinha - 22-06-2010)

Era noite muito escura.
Meu pai foi visitar um amigo, saiu de Campina dos Crispins para Boa Vista.
Naquele tempo era sertão. Foi de cavalo bem selado, ia galopando quando de repente lá pelas tantas o cavalo deu uma relinchada e parou, não queria seguir adiante.
Meu pai pregou as esporas na virilha e deu umas taladas na anca do tordilho. Foi quando ele empinou. E do mato fechado saiu uma mula sem cabeça que foi acompanhando eles até uns dois quilômetros e batia o rabo e saia faísca de fogo dos cascos da mula.
De repente deu uma arrancada na frente do tordilho, onde meu pai estava montado e sumiu numa valeta. O susto foi muito grande que nunca mais meu pai ia a noite escura visitar seu amigo.
Dizem que La onde a mula sem cabeça some, existe um caixão cheio de ouro. É só marcar o lugar, convidar os amigos e coragem...Para ficar rico.

Con.te.vi!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Minha história encantada




Minha história encantada (Piên – Cochoeirinha - 1965)

Uma tarde de verão, era umas seis horas quando o sol já ia se pondo, resolvemos descer no tanque eu, a Zélia, a Leoní, o Paulo e o Pedro.
As cigarras e os sabiás ainda estavam cantando (era muito bonito); o nosso mato era fechado e a noitinha era já escura dentro dele.
Nós chegamos na barraquinha onde havia uma nascente do tanque. Ali também era rico em argila. É um barro branco que nós tirava e fazia tigela, panela, caneca. Secava ao sol e brincava.
Acontece que naquela tarde, de repente ouvimos um barulho e um reflexo luminoso que vinha em nossa direção. Imediatamente eu gritei – subam na árvore! - A Zélia subiu mais alto, a Leoni até a metade e eu arquei uma aroeira para subir o Paulo e o Pedro. Nós ficamos ali quietinhos.
Foi se aproximando aquele homem que era tão alto, mas tão alto que a Zélia, que subiu no galho mais alto, dava pelo seu nariz.
Era um esqueleto só. Quase todo de ossos à mostra não fosse pela pele ressecada e toda esticada. Um nariz ossudo e comprido que dava asco só de olhar. Em roda dele havia um reflexo branco que doía nossos olhos. Passou a par da nossa árvore e depois de três passos foi sumindo.
Descemos daquela árvore e voltamos correndo para casa tentando explicar da melhor maneira possível a aparição, mas ninguém sabia o que era aquilo. Minha mãe, fazendo calar o alvoroço, contou que logo adiante daquelas mesmas árvores havia três sepulturas dos bugres. Quando chegava o dia das almas, no mês de novembro, vinham os bugres visitar seus entes queridos que tinham enterrado naquele lugar trazendo flores e velas. Mas aquele esqueleto que nós vimos sumiu dalí. Então era um mistério..., alguns diziam que ali os bugres haviam enterrado algo precioso, outros, sempre adultos, ficavam surpresos e cheios de receio...! Que tinha algo estranho, tinha.
Com o passar dos tempos, o mato que era tão fechado, foi sendo desmatado. Na época tinha tantos bichos, barulhos, visagens e assombrações, que seguido as crianças vinham correndo assustados. Os adultos então, já haviam seguido coisas estranhas por todos os cantos da mata.
Na nossa imaginação de criança, sempre pensava-mos que era panelada de ouro que estivesse em algum canto do matão, ou alguma recompensa misteriosa das fadas que os antigos contavam. Só que nunca ninguém teve coragem de afundar mato adentro para procurar.
Fica na lembrança as coisas lindas de criança que vivemos e passamos quando estava-mos todos juntos lá em casa. (Saudades que não volta mais).
(Doris)

Fato ocorrido com a Família Italiana



Fato ocorrido com a Família Italiana

Há muitos anos atrás, veio da Itália uma família morar aqui no Brasil. O casal e 3 filhos. O mais velho tinha 17 anos, o do meio 13 e a caçula 8 anos. Desembarcaram no Porto de Paranaguá. Depois de alguns dias chegaram à nossa região que na época era sertão. Não existia carro nem meio de comunicação.
Então construíram uma casa de pau-a-pique, e começaram a capinar a terra para plantar mandioca, feijão, milho e etc. Logo começaram a criar algumas galinhas, patos..., e assim viviam.
Conta a história que o moço mais velho ia todos os dias buscar um feixe de lenha. Sua mãe um dia cozinhava feijão, outro dia alguns legumes, e assim seguia os dias. Mas todos os dias o moço chegava do mato assustado:
- Olha mamãe, já faz tempo que eu vejo uma luz estranha lá no meio do mato e fico com muito medo.
Então o pai que era o mais corajoso resolveu ir ver. Chegou perto, meio assustado e percebeu algo diferente. Aquela luz pairava no ar a meio metro do chão, a par duma árvore. Era linda! Brilhava de toda cor. De repente um vento forte ao redor dele travou-lhe as pernas e não pode mais andar.
Começou a gritar bem alto para sua família escutar. Logo chegaram os dois filhos, mas aquela luz brilhava ainda mais. Então o moço mais velho falou bem alto:
- Se tiver alguma riqueza por aqui: ouro, prata ou diamante enterrado neste local, que saia o espírito do dono e revele-se para nós! Saia e descanse em paz..., nem terminara de falar quando sentiram um sopro tão forte que os três quase foram ao chão, e imediatamente, ficou tudo estranhamente calmo. – Vejam! A luz sumiu! - Chegando até o local da luz, perceberam que tinha um baú, de madeira já podre, enterrado. Mal tiraram a terra de cima da tampa e já perceberam em seu interior muitas peças douradas de talheres e artesanatos, muita prataria e muitos anéis e colares de pedras preciosas.
Desenterraram, levaram para penhora num banco, e dali em diante foi o começo da prosperidade dessa família italiana aqui no Piên.
(Doris)

A pesca encantada (desesperada)


       Conta um de meus irmãos, que quando tinha seus quatorze anos de idade pediu para sua mãe que queria pescar.
Então pegou o anzol, as minhocas, colocou o chapéu de palha na cabeça e foi num rio ali próximo da casa que tinha poços dentro dele, e que dava muitos peixes tipo bagre, lambari e pintado. Mesmo porquê naquela época os jovens pescavam muito.
Mas meu irmão, cujo nome era Valtívio, resolveu não chamou ninguém por companhia. Chegando no rio pegou o anzol, colocou a isca, pendurou o chapéu no palanque de uma cerca que divisava com terreno de outro dono.
Jogou o anzol no rio. Ficou ali sozinho no silêncio, esperando qual peixe seria a vez de ser fisgado. Passou um bom tempo e ele percebeu que o silêncio era por demasiado pesado. Um silêncio tão carregado que maltratava a natureza à sua volta. Uma incomodação começou a fustigar-lhe o pescoço, depois desceu pelas costas, as pernas doíam e não havia posição que as aquietasse. Sentiu o bafo quente do ar a sua volta e percebeu que este não ventava, não refrescava, estava meio que pesado.
Quando de repente, ouviu um barulho vindo do meio do mato em sua direção. O barulho aumentava a cada segundo. Podia sentir que era algo que arrastava terra e quebrava galhos. Passado alguns momentos de silêncio total, o barulho retorna mais vivo e contínuo do que nunca. O certo é que o nosso pescador estava morrendo de medo e não conseguia distinguir de que lado estava vindo aquele barulho de sei lá o que arrastado, se tronco, se pedra, se “boiúna” ou o próprio pé do capeta...
Num dado momento, percebeu que as copas das moitas e dos arbustos estavam se movimentando violentamente e vinha na sua direção. Algumas árvores menores dobravam ou desapareciam por completo do seu campo de visão. Rapidamente se joga no barranco do leito do rio e rola pra dentro da água. Deixando só a cabeça de fora, espiando o mato, foi quando viu!...
Dentre uma rocha grande e uma árvore grossa, cujo pé estava escondido por densa ramagem, uma e outra estavam distante mais ou menos uns cinco paços de um homem grande, passou um paredão negro e escamoso que a seu ver parecia tão grosso que caberia um boi adulto lá dentro. A cobra descia pela mata acompanhando o leito do rio.
Era tão comprida que levou sete minutos para terminar sua passagem por de trás da rocha e da árvore. O susto foi tão grande que ao perceber já estava do outro lado da cerca numa disparada desesperada. Deixou pelo caminho o chapéu, o anzol, as minhocas, os sapatos..., e mais alguma coisa por certo.
Chegando em casa contou o ocorrido num desespero só. A família e os amigos que também foram chamados para ouvirem ficaram abismados. Ninguém queria acreditar, mas o desespero do pobre homem dava dó.
No outro dia fomos buscar o chapéu e todo o resto que havia sido abandonado no momento da fuga, mas aí..., nós vimos o rastro!!
Por onde passou a tal cobra, ficou um rastro limpo, sem nenhum matinho, num formato duma meia manilha perfeita, e até socada pois dava pra perceber que amassou a terra. Deveria ter pelo menos meia tonelada de peso, e mais, naquele corredor redondo no chão cabia duas pessoas adultas de lado tranquilamente.
O rastro enorme seguia em direção ao rio, quando alcançou uma parte larga, bem na curva, dava pra perceber que enfiara a cabeça onde havia um dos poços e sumiu-se ali dentro, seu imenso corpo desaparecendo rio adentro.
Nunca mais, nem pescador, nem vizinho, nem caçador, relataram algum aparecimento do tipo. Mas volta e meia sabe-se que bem debaixo do rio, bem naquele fosso que ainda está lá, o rio treme! (Já sabem que cobra era?)
(Doris)

A criança misteriosa



Na localidade de Trigolândia, num lugar chamado pinheiral e logo adiante da fábrica Famosul, numa plantação de pinheiros, a noite uma criança perdida chorava gritando e pedindo socorro. A voz daquele choro corria de um lado para outro no pinheiral.
Eu e minha vizinha, cansadas de escutar, quase todas as noites aquele choro triste, tão triste que magoava fundo o coração, resolvemos então batizar a criança. Fomos até o pinheiral lá pelas onze horas da noite que é quando começou novamente o choro. Aí então eu chamei: menina Maria! Está batizada! Está batizada e descanse em paz.
A partir daquele momento houve silêncio entre as árvores. A voz que corria de um lado para outro, não correu mais, não chorou mais.
Ninguém nunca soube de uma criança que fosse perdida por ali, tão pouco uma que fosse enterrada debaixo daquelas árvores, más uma coisa é certa, essa criança não tinha nome e sem nome ninguém pode ser achado, não é mesmo.
(Doris)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Você sabe quem era???



Meu pai conta que certa noite voltava com um grupo de amigos do sarau, como era chamado naquela época.
Estavam vindo pela rua conversando besteira e falando alto, como é de costume destes grupos de jovens, que não interessa a época do mundo, sempre agirão com a mesma natureza da rebeldia e intolerância que lhe são peculiares.
A rua era larga, mais ou menos dezoito metros de um acostamento a outro, e uma reta de se perder de vista. Cheios de subidas e decidas, hora leve, hora pesada. O grupo descia a ladeira forte que obrigatoriamente passava em frente a um cemitério.
O horário de um sarau terminar, como qualquer outra festa noturna, sempre é lá pelas tantas da madrugada. Nosso grupo de jovens vinha despreocupadamente, com já disse, duas e quarenta da madrugada. Madrugada iluminada somente pela lua, e lá em baixo da ladeira, um postezinho que mal iluminava o portão de entrada para o cemitério. De onde eles estavam mais ou menos cinqüenta metros acima, o poste mais parecia um palito de fósforo com uma brasinha ao lado.
Conforme se aproximavam do portão, tomava forma em meios as sombras uma figura de pessoa. Um dos jovens chamou a atenção dos demais alertando para aquela presença inesperada, e por que não dizer, duvidosa! Perturbadora!
A dita pessoa vinha caminhando, muito lentamente, no sentido contrário da deles, rente o muro do cemitério em direção ao portão da entrada. Era alto, dois metros ou mais. Com o chapéu de abas largas e bico empinado dava-se a impressão que mais alto ainda era. Uma capa negra lhe escorria pelas costas dando a visão de que chapéu, cabeleira e capa faziam parte de uma fundição só.
O grupo toma a decisão de atravessar a rua para o lado contrario ao da figura.
Com os olhos fixos na sombra imensa que se esgueirava, ajudados pela luz do postezinho, viram quando entrou pelo portão do cemitério e sumiu lá dentro.
O portão era alto e arredondado, com mais ou menos três metros de envergadura, de ferro enferrujado, lanças pontudas e molduras circulares. Uma corrente grossa com gomos como a palma da mão, enrolada fechava fortemente os dois lados do imenso portão. (Perceberam o detalhe?).
Quando o grupo de amigos se aproximou de frente para o portão, perceberam o inevitável e inconfundível detalhe! Mesmo estando do outro lado da rua podiam ver nitidamente as grossas correntes e o enorme cadeado que trancava o imenso portão de ferro. Então como é que aquele cidadão entrou "caminhando tranquilamente" sem ao menos parar para abri-lo?
A muralha do cemitério em questão tinha a dimensão de mais ou menos oitenta metros de extensão por quatro metros e meio de altura, de modo que não se podia ver nada do outro lado. Todo feito por postes de encaixe lateral e placas de concreto amontoado em cima um do outro deixando falhas de frestas que hora lhes escapavam capins e musgos bolorentos, hora somente o olho negro dum buraco quebrado.
Os rapazes nunca se importaram com crendices e mitologias mas, ficar para conferir é que não iriam. Um deu uma cotovelada no mais próximo e este no outro até que todos, no mais completo silêncio, avisados pelo olhar, avistaram por cima do muro a figura do chapéu e capa preta acompanhando, como que caminhando pelo lado de dentro do muro.
O que se via nitidamente era do quadril para cima. Notadamente caminhava devagar e a passos largos, de modo que acompanhava o grupo tranquilamente. Num determinado momento, antes do muro acabar, virou a cabeça e mesmo com toda a escuridão os jovens viram...!! Por debaixo do chapelão, um par de olhos grandes e vermelhos e logo abaixo duas ventas soltando fumaça.
A correria foi tão desesperada que chinelos, sapatos, sandálias, brilhantina, lenços e relógios foram se perdendo pela subida-a-fora até que cada um chegou na sua casa com “dois metros de língua” pra fora da boca e aterrorizados.
Depois disso levou quase um ano para saírem à noite novamente.

Con.te.vi!

Os gogós da fala (conto de encantamento)


No tempo que Piên só era “piên”, e que o corvo cantava no gogó do urubu, tinha um fazendeiro extremamente rico e extremamente sabido que andava por estas regiões. Tudo o que se lhe era perguntado respondia na maior facilidade.
Esse fazendeiro mantinha em seu quarto uma gaiola com um casal de periquitos. Os passarinhos eram tão brancos que podia-se confundir facilmente com flocos de lã. Toda vez que os pobres bichinhos davam cria, o fazendeiro mandava decapitar as crias e comia- lhes o gogó. Essa estranha atitude seguia a muito tempo até que o mordomo da casa resolveu investigar o por quê do seu senhor agir daquela maneira.
Um dia levando três gogós cozidos para seu amo, escondeu um, entregando-lhe somente dois, o fazendeiro comeu sem fazer conta. O mordomo comeu o outro e este não lhe tinha chegado ao estômago quando, não se sabe como, ouviu uma conversação pela janela da cozinha. Foi logo verificar o que era a qual foi a surpresa encontrou um grilo e um Louva-a-Deus batendo papo. Ora, vejam só! Os gogós daqueles filhotes faziam entender as línguas dos animais.
O mordomo permaneceu calado, não contando nada a ninguém para manter segredo. Mas um dia, o patrão esqueceu seu relógio em cima da cadeira de palha na varanda onde costumava tomar chimarrão, veio um peru, deu umas bicadas no relógio e saiu com ele enroscado no bico. O patrão logo pediu para que seu funcionário de mais confiança, que era justo o mordomo, desse um jeito de achar o tal relógio perdido.
Este saiu aflito procurando pelo relógio a onde lhe dava na telha. Procurou por dentro da casa, ao redor da varanda, pelo pátio, e nada de encontrar. Quando passava pelo cercado das aves escutou as galinhas no maior dos cocorécos cacarejando e caçoando do peru que não conseguia se livrar dum enfeite ridículo no bico. Indo verificar o que era deu com o relógio enroscado e um peru desesperado. Entregando o relógio a seu dono, este ficou imensamente grato, porque além de ser um relógio todo banhado a ouro, havia sido um presente do seu pai, quando este ainda era moço.
Perguntando o que queria de recompensa, o mordomo falou que somente uns dias de folga já bastariam para que pudesse visitar sua família que morava longe. O patrão deu- lhe um cavalo, roupas novas e muito dinheiro para a viagem e para depois da viagem.
Andando numa estrada escura escutou dois esquilos berrando por socorro. Foi verificar e constatou que haviam sido capturados por uma arapuca de passarinho. Assim que os soltou, saíram pulando de alegria e lá de cima da árvore disseram que o dia que o mordomo precisasse era só pedir que eles viriam ajudá-lo.
Uma hora de cavalgada mais adiante, escutou um berreiro de fazer dó. Desmontou e foi verificar o qual encontrou dois pardais brigando e puxando uma minhoca cada um de um lado. Berrava o pardal da direta e berrava o pardal da esquerda, e também berrava de desespero a pobre coitada da minhoca. O mordomo pediu que parassem com aquela bagunça e resolvessem a questão sem se prejudicar um ao outro, mas os pardais reclamaram que estavam morrendo de fome. A minhoca protestou reclamando que ela nunca fez mal a ninguém por isso não deveria morrer. O mordomo disse que resolveria o empasse rapidinho. Foi até o cavalo e tirou duma bolsa um saquinho de sementes de milho de muito boa qualidade que pretendia levar para seus pais velhinhos plantarem. Deu para os pardais comerem até que estes encheram o papo e empanturraram as barriguinhas. Os pardais saíram voando e agradecendo que um dia iriam recompensá-lo. A minhoca fez um buraquinho na terra e foi-se embora prometendo contar do livramento para todas as suas amigas.
Chegando na casa dos seus velhos, encontrou por lá uma moça muito linda e maravilhosa que fazia companhia ao casal. Logo se apaixonou perdidamente. Esperou por um momento em que a moça estivesse sozinha e foi se declarar, o que a moça lhe disse que ela não era muito fácil de se dobrar. Seu coração era teimoso feito mula xucra e por isso ele teria que provar merecer seu amor.
Então ela lançou sua primeira prova: se o mordomo secasse um banhado que havia atrás da casa, e não ficasse nem pocinha de lama molhada, ela pensaria em casar com ele.
Nosso jovem mordomo se desesperou com aquela exigência absurda e tamanha ousadia.
Uma minhoca escutou a conversa e contou pra sua amiga mais próxima, que contou pra outra, que passou pra outra, até que chegou naquela em que havia sido ajudada. Combinaram em um batalhão delas irem socorrer o mordomo e durante toda a noite, encheram o banhado de buraquinhos até que toda a água do lago secou. Pela manhã quando o mordomo foi se preparar para o serviço encontrou tudo seco! As minhocas deram tchau e sumiram.
Logo em seguida a moça chegou para conferir o serviço e levou uma surpresa tremenda, que amoleceu-lhe as pernas.
Então ela lançou sua segunda prova: se o mordomo limpasse os cinquenta pés de avelãs que tinha no pomar da fazenda, ela pensaria em casar com ele.
O mordomo foi até o pomar de avelãs e começou a reclamar sua lástima quando um esquilo lá de cima escutou. Sumiu de vista rapidinho e com meia hora volta acompanhado. Logo começou a chover uma tempestade de avelãs que cobriram o chão todo do pomar. Um exército enorme de esquilos desceu e carregou cada um a sua avelã até encherem o paiol deste quase vir abaixo.
Agora era ela que começava a se apavorar.
Então ela lançou sua terceira prova: vou até o vale mais baixo deste terreno onde se encontra uns cupinzeiros abarrotados de formigas. Darei machadadas em todos eles. Você deve catar todas as formigas e dar fim nelas até terminar o dia, senão nada feito. Enquanto ela ainda falava, um pardalzinho passou voando por cima de sua cabeça e escutou. Quando ela começou a dar machadadas no primeiro cupinzeiro, logo uma nuvem de tapar o sol estava sobre eles. Choveu pardais de todo lado e comeram todas as formigas. Foi assim no segundo, no terceiro..., e quando ela terminou o ultimo, já não tinha nenhuma formiga mais pelo vale.
Ela vendo que a própria natureza se encarregava de ajudar o jovem mordomo, seu coração se quebrantou e caiu de paixão por ele.
O jovem mordomo voltou para casa do seu patrão com a nova esposa e riquíssimo. Rico de felicidade.

Con.te.vi!