sábado, 23 de abril de 2011

A assombração de cada mobília




A assombração de cada mobília (Piên, 29 de Março de 1961.)

Conta-se que por estas terras, mais precisamente entre Quicé e Vermelhinho, existia uma casa de madeira enorme. A casa por certo deveria ter sido usada por senhores de fazendas, aqueles coronéis de muitas terras onde tinham a seu favor um número enorme de serviçais tanto dentro dos casarões como nas plantações.
No caso deste conto não se aplica à época citada e em nem uma outra, pois o tempo passou rápido e o que se vê agora é uma casa velha na verdade, mas firme em sua exuberância de porte grandioso que fora um dia.
Com mais de quatro metros de altura do assoalho ao forro em seu interior, com uma cumeeira de oito metros de altura que nos remete à cultura européia trazida com as imigrações de uma época de refúgio para o Brasil. De largo a casa teria vinte e cinco metros por setenta de comprimento com seus quatorzes cômodos contando a parte de baixo e cima juntos.
Hora, aconteceu que estando a família reunida um dia esperando a hora da janta, bateu a porta um homem pedindo poso porque vinha de uma andança muito longa e precisava pernoitar em algum lugar. O que a família não imaginava era que o dito estava ali para espionar a rotina da casa, o que logo constatou que entrara numa mina de ouro pois, os móveis e a prataria eram de uma qualidade e valores sem igual.
Tomou um bom banho, jantou, conversou, contou causos e ganhou a confiança da família. Assim que todos se retiraram cada um para seus quartos, ele também se foi para um que lhe foi oferecido, trancou a porta e dirigiu-se até a janela. Com olhos sagazes vasculhou a escuridão da noite e pode diferenciar os lugares aonde se escondia cada um dos comparsas no meio da plantação. Eram oito e estavam armados até os dentes de revolveres, facas, espingardas e sei lá mais o que.
Pegou duma funda, ajeitou um pano embebido de cachaça, enrolou numa pedra, tacou fogo e girou sobre si fazendo-a disparar em meio à escuridão da noite. Esse era o aviso combinado. Sem demora e casa um sabendo do que tinha de fazer, foram se aproximando da casa com movimentos rápidos e furtivos, como se fossem sombras vivas fazendo parte da escuridão total. Com um pé-de-cabra quebraram a fechadura da porta da frente e entraram, todos de uma vez só, fazendo o maior estardalhaço, todos gritando e atirando para o alto.
Todos da casa pularam das camas e se precipitaram para o corredor, mas o primeiro que se encontrava já no topo da escada que descia para os cômodos de baixo era o pai da família, de modo que não permitiu que ninguém descesse, antes escondeu todos por detrás duma prateleira rústica que na verdade era uma porta que escondia uma escada que levava até o sótão da casa.
Acontece que essas casas possuem um sistema de paredes duplas de modo que quem está no sótão acaba escutando todos os barulhos e conversas que vem dos diferentes cômodos, de modo que se podia escutar tudo o que se passava lá embaixo. E o que escutaram foi o seguinte:
No momento que invadiram a residência, logo se ocuparam de empreender o maior estardalhaço possível sendo que três enveredaram pela porta da esquerda que dava para uma sala de jantar enquanto outros três começaram a revirar a sala de hóspedes. Os dois que sobraram foram direto para os cômodos dos fundos onde se viram dentro de um salão enorme, com aparência de salão de festas todo encortinado, tanto janelas como paredes, sendo que, para cada cortina escondia uma cristaleira enorme com cristais e pratarias. Os assaltantes urraram de felicidade.
Só que num determinado momento, quando um deles abre um dos móveis, de dentro sai uma mulher. O assaltante leva um susto e pergunta como ela fez aquilo. A mulher aponta o dedo para o nariz do homem fazendo sinal de que ali não era pra ser mexido, só então o ladrão percebeu – a mulher era transparente.
Quando ele com dois passos pra trás quis gritar para os demais chegou-lhe aos ouvidos uma gritaria enorme que o ensurdeceu por completo. Numa reação involuntária virou o rosto para ver o que estava acontecendo qual não foi a surpresa que presenciou:
Estavam todos desembalados numa correria frenética e gritando por tudo quanto é santo a que viessem acudir, pois todos, há um tempo só viram a mesma coisa. Os ladrões da sala de jantar deram com a mesa de vinte cadeiras todas ocupada por aquelas criaturas transparente. Os as sala de hóspedes viram um casal de velhos namorando no sofá enquanto crianças ocupavam sentadas e por cima das poltronas adjacentes e mais três jovens revirando uma estante de livros e como já mencionei – todos transparentes.
Na sala que supostamente era de festas começaram a sair pessoas, uma para cada cristaleira, atravessavam as cortinas como se elas fossem de névoa e logo todo o salão se encheu de gente, todas atravessando uma as outras e atravessavam os ladrões também, sempre fazendo o mesmo sinal para que não fosse mexido em nada. A casa ficou tão abarrotada de espíritos que os ladrões não se enxergavam nem a eles mesmos, muito menos para onde correr, até que não se agüentando de pavor começaram a desmaiar. Os que não desmaiavam se chocavam contra as paredes e móveis da casa espatifando no chão com a cabeça ou a cara quebrada.
Quatro ficaram estendidos inconscientes, dois pelo salão principal e dois na cozinha. Os outros quebrados e ensangüentados enveredaram porta a fora, mas o que encontraram foi bem pior. Uma horda de criaturas transparentes como véu estavam esperando do lado de fora, todos mostrando o mesmo sinal com as mãos (como já mencionei), para que não mexessem em nada, com a diferença de que agora elas eram descarnadas e suas faces eram de caveiras sorridentes e olhos ocos.
O alarido de pavor foi tão grande que até os da casa se apavoraram com tal gritaria. Dava-se a impressão que dos ladrões não estava sobrando nenhum, pois alguma criatura desconhecida os devorava, mas a família não via absolutamente nada!
Após cessar a confusão, esperaram-se mais um bom tempo e só então desceram para averiguar os estragos, qual não foi a surpresa, encontraram tudo no lugar, sem bagunça ou quebrados. A única diferença era os quatro assaltantes desmaiados pela casa e manchas de sangue pelos cantos das paredes e móveis.

Con.te.vi!

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