sexta-feira, 24 de junho de 2011

Águas Brilhantes


Águas Brilhantes (Piên – Boa Vista - 2012)

Na localidade de Boa Vista corta um rio que movimenta as antigas engrenagens dum Moinho. Sua vista é bela, deslumbrante. Bem ao lado despenca uma cachoeira que está ali há muito, mas muito tempo mesmo, e se escutasse-mos sua voz de trovoada constante, ouviria histórias que a muito se perderam no tempo. Tempo que os homens partilham com uma passagem muito breve nesta nossa vida de névoa. Mas bem que uma árvore pode contar muito mais, mas bem que uma pedra pode contar bem mais, mas bem que uma cachoeira nos contará muito, muito além...
Naquele tempo o moinho não existia, pois ainda não se plantava trigo por aqui. Essas terras estavam começando a ser desbravadas e tudo o que se via era bicho feroz e muito índio. Só que de maneira nenhuma se podia pensar em terras abandonadas, pois volta e meia alguém de longe resolvia por os olhos pro lado de cá, neste confim de mundo, ou para caçar, ou para praticar alguma safadeza às escondidas. Normalmente alguma autoridade querendo se passar por invisível, ou algum cientista não querendo ser descoberto pelas suas práticas malucas. E é bem o nosso caso que vou fazê-los saber:
Desceu certo dia, na estação de trem da cidade de Rio Negro, um cientista com um mapa na sua mochila, trazendo também na outra mão um vasilhame redondo de alumínio, aparelho bem esquisito. Por onde passava despertava olhares curiosos. Arranjou cavalo pros equipamentos, outro para si, um guia e se pôs em viagem pros lados de cá. Estava tudo calculado. Queria aquele rio que escolheu por um simples olhar no mapa. Claro que se estava já calculado alguma coisa, então não era à toa que vinha para cá. Tinha algum segredo em mente, más como todo cientista, não revelam nada e se irritam se alguém insistir em perguntar alguma coisa. Agora, depois da experiência concluída, não espera nem respeita a curiosidade de ninguém, se trama a falar, falar e falar, numa interminável aula explicativa que pode levar de meio a três dias numa falação empolgada que é de enfadar até boi ruminando no meio do pasto.
Depois de um dia e meio de viagem resolveu parar numa clareira onde cruzava dois caminhos. Um feito pelos índios que vinha do rio negro seguindo adiante até dar numa planície que se formava à oeste, com quem acompanha o nascer do sol. O outro caminho foi feito por desbravadores que já estavam por aqui há algum tempo e começavam a arriscar algum nome pro lugar. “Goioxim” era um dos nomes encontrados que quer dizer “águas pequenas”, devido a grande quantidade de rios de médio e pequeno porte e uma infinidade de córregos, nome este dado pelos índios Caingangues. Outro nome encontrado pelos desbravadores foi “Erê ita” que quer dizer “Campo de Pedra”, este nome quem chamava era uma família dos Tupi-Guaranis que haviam por aqui porque nascem muitas pedras de dentro do nosso solo, afora as pedreiras que temos.
Mas voltando ao nosso cientista, depois de ter armado a barraca, pegou seu cilindro e abriu. Saiu uma névoa gelada de dentro daquilo. Dirigiu-se até o rio, bem na encruzilhada, onde a junção dos caminhos era dentro do rio e a passagem só podia ser feita caminhando por entre as pedras, justamente onde agora é a “ponte do Boa Vista”. O que havia dentro do cilindro era um tipo de algas do mar encontradas em águas salgadas do litoral, que em contato com água doce, ou águas de rios, brilham como vaga-lumes, (pelo menos é assim que pensava o cientista), o detalhe é que essas algas são tão minúsculas que não se pode ver a olho nu, é como grãozinhos de pó do mais finíssimo, como o grão de um talco por exemplo.
No mesmo instante em que derramava o conteúdo, ia se formando um filete como se fosse de algo oleoso acompanhando a correnteza, mesmo sendo horário da tarde em que o sol estava forte no céu, deu pra vislumbrar a luminescência forte que começava a espalhar e acompanhar o curso do rio. O cientista deu um berro: Eureca! Ficou ali parado com o maior sorriso do mundo estampado no rosto. Havia descoberto um lugar no mundo onde podia procriar aquelas algas fora dos mares salgados.
O que o cientista ainda não sabia é que a luz esverdeada dessas algas só acontece quando a gente mexe com elas, e que só sobrevivem em águas salgadas, não em águas geladas como acreditava. Ficou ali fazendo suas experiências e mandou o guia voltar com uma carta pedindo “mais três cilindros de 250g com algas”, endereçada a um Instituto de Pesquisa Internacional com sede em São Paulo.
Chegando o guia na agência de Correios de Rio Negro, pediu que queria endereçar a carta o mais rápido possível, pois seu patrão se encontrava no meio de uma mata virgem, era estrangeiro de fama e do maior respeito. Quando o gerente da Agência viu o nome estampado na carta, levou um susto, pois o reconheceu de reportagens assistidas pela televisão. Era um doutor muito famoso da Inglaterra! Pegou na carta e verificou que esta estava aberta. Interrogando o guia ele explicou que além de postar a carta, seu patrão desejava que o conteúdo escrito fosse telegrafado.
Muito afoito com a noticia que acabou de receber, o gerente pegou o papel de dentro do envelope, meio que tremendo, meio que apressado, entrou numa saleta onde estavam as máquinas de telegrafo. Puxou uma cadeira com força e ela despencou rolando pelo chão. Disparou um palavrão endireitando a cadeira e sentou com força. Pegou o papel já meio amassado e se pôs a telegrafar para o endereço indicado, a mensagem era assim:

"I, Dr. Hauff Mahrraider, request further samples of algae as required for our research here in Brazil. Please send more willing to 250g of three cylinders with more algae”.

Traduzindo seria assim:
Eu, Dr. Hauff Mahrraider, solicito mais amostras de algas para nossa já requerida pesquisa aqui no Brasil. Por gentileza queiram mandar três cilindros de 250 g com mais algas.

Como está escrevendo em inglês e na maior afobação, acabou trocando o “de” pelo “c” mudo. O dedo tremeu em cima do zero passou a ser “00”. E o “g” de grama saiu com um “k” de quilo, aí então ficou assim:

Eu, Dr. Hauff Mahrraider, solicito mais amostras de algas para nossa já requerida pesquisa aqui no Brasil. Por gentileza queiram mandar três cilindros c 2500 kg de algas”.

A tão renomada universidade entrou em polvorosa. Tinham que dar um jeito de conseguir 2,5 toneladas de algas para o cientista! Por ser ele muito importante, podia desabar o mundo, sem algas ele não ficaria.
No cabo de vinte dias chegava ao porto de Paranaguá um navio com três containeres em forma de cilindros. Foram engatados a três helicópteros por cabos de aço e rumaram pela serra contornando Curitiba até entrar em nossas terras de mata virgem.
Um dia antes dos helicópteros chegarem, seu Lorival que era morador junto duma tribo de índios mais ou menos 1 km rio acima, tinha tratado troncos de árvores com água salgada, uma técnica dos índios para que a madeira fique mais rígida. Havia represado o rio de forma que este se transformou num imenso lago morto, pois estava saturado de sal já há alguns meses. No meio da tarde daquele dia resolveu abrir a represa. Com a ajuda dos índios, puxaram os troncos que seguravam as pedras e tábuas da parte de baixo da represa, o peso da água fez o resto. Toda aquela imensidão desceu rio abaixo. A onda gigante seguia tranquilamente as curvas do rio, só que arrastava tudo que encontrava pelas margens.
O cientista estava lá, deitado dentro da barraca conversando com seu guia sobre a extrema demora de mandarem seu pedido. Não era um pedido tão difícil assim, afinal de contas ele só pedira três cilindros de algas! Estava nessa quando escutaram uma trovoada que vinha crescendo do meio da mata. Saíram da barraca assustados. Nem imaginavam o que poderia ser aquele barulho todo, pois no meio do mato só se fosse um terremoto ou furacão!
O guia apavorado e gritando saiu correndo apontando para cima do curso do rio. O cientista que era esperto e pensava rápido, tratou de correr junto do seu guia antes mesmo de olhar para trás. Subiram os dois numa elevação mais alta do mato e de cima duma pedra grande contemplaram a gigantesca onda carregando tudo o que encontrava pela frente. Pedras, animais, vegetação, árvores, barraca, mantimentos, ferramentas e toda a parafernália.
Tudo que puderam fazer era contemplar desolados e apavorados sem poder acudir nada, nem mesmo seus cavalos. A única idéia que realmente tinha importância naquela hora era a da sobrevivência. Os dois sabiam que sem mantimentos e sem agasalhos para o frio, seria muito difícil permanecer no meio do mato. Claro que a experiência nessas horas já foi pro brejo. Então sem perda de tempo, puseram-se a caminho e foram embora.
No outro dia à tarde, os índios da aldeia ali perto e seu Lorival escutaram um rugido que mais parecia um batuque de algum tambor gigante. Passou por cima das tabas cortando as copas dos pinheiros e eucaliptos três naves, roncando suas hélices e preso logo abaixo estavam cilindros gigantes, que nada mais era do que containeres para transporte de líquidos.
Os pilotos encontraram o lugar marcado, pois seria numa encruzilhada onde se encontravam duas estradas bem em cima dum rio. Estaria marcado o local com bandeirolas onde seria para descarregar os cilindros. O local que encontraram era dentro do rio, ou seja, teriam de descarregar os containeres no meio das águas. As bandeiras na verdade haviam sido arrancadas do lugar original e estavam enroscadas sobre pedras no leito do rio e nas margens.
Os pilotos se comunicavam pelo rádio e perguntavam um para o outro onde haveria de estar o Doutor Hauff. Não poderiam simplesmente abandonar os containeres ali no meio da floresta. Mas também chegaram à conclusão de que não poderiam voltar com aquele peso todo dependurado nos helicópteros por não haver combustível suficiente. Teriam de descarregar o conteúdo dos cilindros primeiro.
Olha daqui, procura dali, nada de achar o homem. O combustível acabando... Então tomaram a decisão. Baixaram o vôo até que os cilindros tocassem as águas do rio, deixaram as naves paradas em pleno ar no piloto automático. Cada piloto desceu por sua escada de cordas e cada um esvaziou seu cilindro de algas dentro das águas do rio. Aliviados com 2500 kg de peso a menos em cada um dos cilindros de containeres, os pilotos garantiram que o combustível agora daria para retornarem até o porto de Paranaguá. E foram embora!
Tudo o que as algas precisavam estava ali mesmo. Muita água salgada e muito movimento para que brilhassem. Então elas brilharam uma luz verde como as do vaga-lume, só que aos milhares, aos milhões, talvez aos bilhões. Por onde as águas tocavam tingiam tudo de luz.
As pedras eram lâmpadas de luz. Lampadazinhas em grãos ou lâmpadas gigantes, tal qual fosse o tamanho da pedra. Os galhos e troncos irradiavam uma luminescência magnífica. Uma anta que saiu das águas parecia um bicho celeste. Um peixe que pulou para fora da água brilhava como um fogo místico das profundezas. Tudo, tudo o que as águas tocavam seguia brilhando, até que elas encontraram um povoado, isso já era mais ou menos seis e trinta da tarde.
Estavam brincando nas margens do rio duas meninas e três meninos. Os meninos se entretinham com algumas pedras e conchas mais perto da margem enquanto as meninas nadavam pelo meio do rio. O lugar já era bem conhecido pela sua corredeira e por ser raso o suficiente para alguns mergulhos da criançada.
A mãe dos meninos veio chamar avisando que estava escurecendo, era hora de parar com as brincadeiras e voltar para casa. Os meninos saem da margem chutando água e areia para todo lado, um deles olha para as meninas lá no meio do rio e chama para também irem embora. Uma responde de lá que a água do rio está com gosto esquisito, parece salgada!
As outras coleguinhas lambiam experimentando as mãos molhadas e fazendo cara de espanto, pois nunca tinham sentido gosto de rio salgado. As três deram um último mergulho na intenção de se aproximarem da margem vindo por debaixo d’água.
Enquanto isso os meninos esperavam num banco de areia fora das águas, quando um deles falou impressionado apontando para a areia nos pés. A areia brilhava! Cada grãozinho ofuscado como milhares de caquinhos de vidro ao sol. A diferença é que não havia mais sol. Derrepente surgem as meninas saindo das águas todas ao mesmo tempo. Imaginem o susto da piazada! O que eles viram foram três fadas cintilantes emergindo como sereias balançando fachos de luz pelas costas e espirrando fagulhas de luz para todos os lados.
Por um momento ficaram de boca aberta, extasiados, noutro saem em disparada e entram quintal à dentro donde moram gritando que fadas saíam do rio, que sereias estavam lá na margem chamando por eles! Na entrada enlouquecida para dentro de casa trombaram com a mãe e o pai que vinham assustados ver a gritaria, mas nem precisou muita explicação: Lá na estrada se aproximava três aparições fulgurantes.
O casal reconheceu logo quem eram as meninas, mas como explicar a luz? Será que haviam virado santas? Foi quando o pai dos meninos olhou novamente para eles e percebeu que os pés de cada um brilhavam. Com podia ser aquilo? Uma idéia lhe passou pela cabeça e perguntou aos meninos onde eles haviam estado, o qual responderam que era nas margens onde encontra os dois rios, o negro e o de goioxim.
O homem sabia que os meninos preferiam esse nome, mas os índios há muito tempo chamavam o rio pelo nome do lugar donde vinha: pi-enn – piar do gavião.
Nestas alturas o horário havia avançado, de modo que estava já escuro, e tudo que se via brilhava maravilhosamente. Na verdade o que se via brilhando naquele momento era os pés dos meninos, as meninas e pedregulhos que elas traziam nas mãos para mostrarem pro pessoal da vila. A mãe reparou que elas estavam tão extasiadas quando eles.
Todos da vila chegavam assustados para verem as três meninas reluzentes de modo que quando um passava pela frente da casa doutro logo chamava para irem ver o ocorrido. Em pouco tempo formo-se uma procissão que tomava conta da estrada. Não era pra menos, pois de longe se via o brilho das meninas e eis aí um bom motivo pra chamar a atenção, não é?
Os meninos pegaram os pais pelas mãos e levaram até o local de onde saíram. Chegando lá levaram uma dupla surpresa, pois o que viram nunca mais puderam esquecer tal foi o impacto da visão. E é por isso que se conta esse fato até os dias de hoje, nunca ninguém jamais esqueceu!
As águas do rio brilhavam como se a própria luz tivesse se liquefeito e tomasse o lugar do curso do rio lampejando fachos fulgurantes pelas copas das árvores e pelos barrancos. Cada lampejo produzido por estalos nas águas que nada mais era do que todas as crianças da vila mergulhando na mais sublime felicidade. Já haviam descoberto a maravilha e desfrutavam com alvoroço típico dos nossos anjinhos. O aspecto deles era exatamente esse. O de anjos brincando e reluzindo sobre o encontro das energias celestes, que na verdade era as águas do Rio Piên e Rio Negro, ou melhor, Água- negra e Goioxim.
As crianças vinham com alegria sublime e pegavam pelas mãos de seus pais, de seus irmãos, puxando para dentro daquelas águas milagrosas capazes de transformarem os corações empedrados dos adultos e transformá-los em crianças novamente. À medida que o adulto entrava na luz mágica, chamava seu companheiro mais próximo, conhecido ou não assim se irmanavam numa alegria fervilhante capaz de ofuscar todos os males do coração, e acredite, todos os males da vida humana.
Não se sabe por que ninguém sentiu frio naquela noite, mas o que ficou na lembrança foi uma vila que se transformou do seu modo de viver. Parece que o povo do lugar se recusava a entristecer. Quiseram e conseguiram manter a chama da vida acesa por muito tempo, até que o tempo, como sempre, consegue nos esconder tudo deixando somente vestígios para que a humanidade sempre tenha fome de busca. E busque interminavelmente sua fonte de felicidade.

Seu Lorival seguiu o curso das "algas brilhante"s desde a hora que apareceram. Começou a surgir depois da ponte do Boa Vista quando encontrava as águas salgadas. Testemunhou tudo. A última imagem daquele dia foi a cachoeira. A visão era a de uma ofuscante cascata trovoando sua luz borbulhante, que fazia com que uma névoa sublime subisse aos céus. As pedras! Ah, as pedras! Eram de um fulgor tal que minhalma tinha certeza que um pedaço celeste havia caído ali!

Con.te.vi!

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