quinta-feira, 2 de junho de 2011

A onça de pedra


  
   Conta-se que na pedreira antiga, depois do Poço Frio e quase  na Campina dos Maia uma empresa especializada em extração de pedras acabou por aparecer por essas bandas.
     Naquela época as estradas eram abertas a muque do braço. À pás e enxadas e mulas. As estradas eram muito precárias e havia caminhos de roça sem fim. Mas quando o maquinário começou a chegar, foi a sensação do momento.
     Os pouquíssimos habitantes que existia por aqui ficaram entusiasmados e extasiados pelo tamanho dos maquinários que chegava a todo o momento, exceto por um índio caingangue. Sabia das histórias que seu povo, da família Jê, que povoara estas regiões no passado. Sua preocupação tinha fundamento, só que, ninguém nunca acreditava no velho Índio, então ele guardava seus segredos somente para si.
     Mas um dia, um desses dias em que todos estão atarefados, falando alto, martelando, quebrando e roncando seus maquinários, o caingangue atravessa pelo meio da obra apressado, de cabeça baixa, como quem não quer olhar aquelas coisas horrendas e vergonhosas da civilização. Sabia que aquelas máquinas feitas pelas mãos do homem branco somente servia para destruir a mãe natureza de que ele, sua família, seus antepassados tanto amavam.
      Foi quando um peão da obra avistou o índio lá de cima do seu gigantesco caminhão e berrou a todos pulmões que o caingangue deveria beijar seu deus tupã, o caminhão.
      Outro que estava numa retro-escavadeira entrou na brincadeira sugerindo, também aos berros, que as máquinas estavam amolecendo de vergonha por ver um índio além de pelado, ser o pelado mais feio que a mata já criou. Ele bem sabia que não estava completamente nu e não se deixaria provocar por brancos ignorantes.
       Foi quando o primeiro a provocar falou novamente perguntando se por acaso o índio velho não teria em casa umas indiazinhas para ele fazer festa. Podia ser até a índia velha que não se importariam.
       O caingangue já estava quase fora do canteiro de obras quando se voltou, pegou seu Katukinaru e começou a batucar um ritmo estranho, violento, gemendo e espancando o tamborete como se estivesse com muita dor cantou:

                            Mim hoje foi humilhado
                            Porque homem branco
                            Não conhece o Deus de Jê.

                            Mas Tupã mandará ming’ça
                            Acabará com ronco até cá
                            E fará tudo isso goro-erê

      Quanto mais o índio cantava, mais os homens riam; cada vez mais alto ele gemia e chora, mais os homens se deliciavam em zombarias.
      Certo momento daquela euforia, estava o pessoal do barraco onde era o escritório improvisado da empresa, todos olhando o espetáculo pelas janelas, quando se ouve um rugido que ensurdeceu os roncos de todos os motores tanto de tratores como de caminhões, e também os ouvidos de todos.
       O escritório improvisado fora feito ao lado dum barranco de pedra, este era mais alto que o barracão de modo que quando o pessoal escutaram o rugido, abandonaram o espetáculo do índio e mudaram para as janelas do outro lado. Quando olharam para cima da montanha avistaram uma onça preta muito grande, enorme mesmo. Ela deu um salto e projetou-se queda abaixo entrando com a violência de um Quibungo. Foi uma gritaria só. Todos se jogavam por cima e por baixo dos móveis, outros tentavam pular as janelas, mas o escritório fora feito numa elevação de pedras, o que acabavam por se espatifar lá em baixo. A onça preta (ming’ça), distribuía patadas com suas garras afiadas como navalhas, rasgando a carne que encontrava pelo caminho.
     Com a mesma violência que espatifou o escritório e todos que estavam lá dentro, saltou pelo outro lado das janelas e pousou na cabine do caminhão daquele que fez a primeira provocação, mostrou seus dentes caninos enormes e... rugiu! Rugiu tão alto que o vidro pára-brisa se espatifou. O rugido não diminuiu, antes foi ficando ainda mais alto até que brotou sangue dos ouvidos do peão, que de tanto pavor, o coração parou. Com a agilidade dos felinos, pulou do caminhão até a retro-escavadeira e com uma só patada quebrou o pescoço do outro peão. Saltou no chão e saiu caminhando como um gatinho que tivesse acabado de tomar leite.
     Ao passar ao lado do índio, parou para escutar a música que agora era uma melodia fraca, resmungada, quase um sopro. Escutou e se foi.
     O caingangue de Piên sentou no seu katukinaru e ali ficou o resto daquele dia, a noite toda e o outro dia até as três horas da tarde do dia seguinte, onde todos, assustados e humilhados deixaram estas terras.
     Índio levanta, olha para cima e sorri, pois o que ele vê com certeza não verá por muito tempo, pois ele é índio velho, logo partirá dessa terra; más o que ele vê continuará ali a piar no seu céu de sempre; outros virão, gente nova nascerá e verão o mesmo que ele, seja antes dele, e depois dele, e muito depois também: Um pássaro no céu que canta -  piééé – piééé – piééé...

Con.te.vi!

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