segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu sou um...

 
Eu vim ao mundo dum jeito que ninguém vem. Vim e fui jogado, abandonado, amontoado.
Estava num lugar escuro, escuro e apertado, escuro e apertado e quentinho. De repente toda essa calmaria começou a chacoalhar e o apertadinho passou a ser espremidinho. A pressão aumentou, parou. Aumentou, parou. Aumentou de novo só que muito mais forte e me vi caindo num buraco luminoso que se ia alargando cada vez mais, até que varei para uma imensidão brilhante e caí. Senti-me leve, como se tivesse boiando num frescor ventoso que nunca tinha sentido antes. Nada de apertos, nada de quenturas, e principalmente, nada de silêncio!
O lugar donde eu vinha era muito quieto, tranquilo. Quando se mexia era devagarzinho, bem devagarzinho. Este lugar luminoso é barulhento. Hora frio, hora gelado. Quando pensei que ficaria duro por causa daquele vento, Plaft! Bati em alguma coisa que me fez amontoar. Da onde eu vinha era redondinho, como um cano macio. Onde caí era duro, cheio de umas coisinhas verdes que me pinicavam a dosa hora, verde e geladinhas.
Fiquei ali esperando pacientemente. Nada acontecia. Minto. Nada não! Acontecia algo sim, uma mistura de sensações que nunca tinha sentido antes. Um ventinho fresco me esfriava à todo momento mas, quando um brilho forte vinha de cima, o ventinho enfraquecia e aquele brilho me esquentava, mas esquentava de tal maneira que me arrancava suor e perfume! Não digo que seja um perfume que todos adorem, mas é o meu perfume, ué! Fazer o quê? Inclusive esse foi o motivo para que eu ficasse ali por um bom tempo. Eu via bichos por toda a volta que passavam ao longe. Bichos pequenininhos, bichos grandinhos, bichos grandalhões e bichos gigantes. Cada vez que um deles vinha na minha direção, ou passava de largo lá por longe ou desviava a pata.
Eu ansiava por uma amizade com aqueles bichinhos e bichões, mas quê? Tudo que ouvia era – Argh! Cuidado! Passe longe filho!
Então eu chorava:


VIM AO MUNDO AMONTOADINHO
SEM PAI NEM MÃE NEM IRMÃOZINHO
TODA A COMPANHIA QUE AGORA SINTO
É DA LUZ DO CÉU ME QUEIMANDO
OU D’ORVALHO DA NOITE ME ENSOPANDO.


Um dia estava eu tentando chamar atenção duma coisa enorme e redonda que rolando de não sei d’onde veio parar do meu lado, só que uma pata enorme a chutou pra bem longe e alguém gritou: não pise aí!
Depois disso veio uns bichinhos cegos e surdos que, com certeza, não viam por onde passavam, por que por mais que fizesse sentir minha presença, eles passavam por dentro de mim, me enchiam de cosquinhas e saíam do outro lado como se eu não fosse nada.
Então eu chorava:


VIM AO MUNDO AMONTOADINHO
DO QUENTINHO FUI TIRADO
PRA SER PISADO NÃO PRESTO
PRA SER CHEIRADO DÁ NOJO
MAS OS VERMINHOS? ESTÃO ME COMENDO!


Outro dia veio o bicho criança e com um pauzinho começou a fazer furinhos em mim. Para cada furinho que fazia colocava uma minhoquinha. Aí veio o bicho mamãe e catou ele pelas orelhas, ergueu ele pelas orelhas, e nas orelhas dele xingou de seu porco, seu imundo. Cá pra mim o menino sabia que a minhoquinha ficava feliz com meu cheirinho, então o menino ficava feliz! Eu pensava no menino e na mãe do menino.
Então eu chorava:


VIM AO MUNDO AMONTOADINHO
FUI ARRANCADO DO MACIOZINHO
PARA UMA CRIANÇA FAZER FURINHO
MAS NEM A MÃE ME QUE POR PERTO
DO MENINO PORQUINHO-IMUNDINHO.


Mais um dia veio. Só que desta vez bem diferente. O mesmo menino do outro dia vinha catando meus vizinhos espalhados pela aquela coisa verde que me pinicava, que só agora sei como se chama. É grama! O menino me catou com o maior cuidado e com um sorriso largo me colocou num baldinho. O baldinho estava cheio de terra preta, úmida e com minhocas. Não sei se foi impressão minha, mas parece que a terra e as minhocas estavam cantando?!
Só então percebi a intenção do menino. Ele me levou para um buraquinho, numa terra bem fofa e bem preta. O buraquinho me serviu direitinho. Me ajeitou, me cobriu com terra e fiquei quentinho, quentinho.
Só depois de algum tempo é que descobri que sempre me quiseram, só que tinha de ser no tempo certo, pois dentro da terra, quentinho e úmido, ajudado pelas minhocas, dei força a ela (a terra), para produzir um canteiro enorme de alfaces.
Então de alegria eu chorava:


VIM AO MUNDO AMONTOADINHO
CAÍ AO VENTO GELADINHO
ATÉ QUE VIRAM O MEU CHEIRINHO
ME CATARAM COM TODO CARINHO
POIS EU SOU UM... COCOZINHO!

Con.te.vi!

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