sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Onde posso por?


Onde posso por? (Piên – Poço Frio – 2011.)

Conta-se pelo povo da localidade de Poço Frio, quando falo povo é porque todos conhecem esse fato, que na ponte da igreja e nos arredores dali volta e meia alguém topava com um homem de terno branco e uma estaca em cada mão, passeando durante a madrugada e dizendo sem parar, onde eu posso por?
Depois de um certo tempo o homem parou de aparecer nas redondezas da igreja e começou a cercar as pessoas em cima da ponte sempre com a mesma pergunta: - “onde posso por?
Um dia vinha passando pela ponte uma família, lá pelas 11 horas da noite, quando avistaram o homem de branco que vinha em sentido contrário deles, também cruzando a ponte. Como já se sabia da existência do tal individuo, todos firmaram os passos e não levantaram a cabeça imaginando que o homem passaria por eles sem lhes dirigir a palavra. Mas quando se emparelharam lado a lado, o homem parou, virou-se para eles e perguntou com uma voz que mais parecia ter saído duma manilha: - onde eu posso colocar? – O pessoal paralisou no lugar onde estavam, mas viram bem com quem estavam falando.
O homem vestia sapatos brancos tão lustrados que ardiam os olhos, vestia um terno tão alvo, tão branco que cegava as vistas, segurava uns marcos de madeira tão branca como neve, tinha o rosto tão branco que parecia mais cera de vela.
O pessoal que viu aquilo ficou tão apavorado que saíram correndo de cima da ponte e nem sequer olharam para trás. Quando chegaram em casa contaram para o senhor pai da família. O homem ficou pensando, não disse nada, mas resolveu averiguar se era mesmo o que estava desconfiado. Acontece que ele sabia dum ocorrido que teve a algum tempo naquelas terras e conhecia o homem que morrera. Esse homem era muito poderoso, dono de muitas terras, só que tinha mania esquisita de arrancar os marcos de seus terrenos, quando morreu, não havia sossego para ele enquanto alguém não lhe mandasse por de volta.
Na próxima noite o pai corajoso esperou dar o mesmo horário que sua família havia encontrado o individuo e se foi para o meio da ponte. Não esperou muito, lá veio o homem de branco repetindo sem parar, sem pressa, bem devagar: - onde posso por? Onde posso por? – O pai valente gritou para a visagem – “coloque aonde você arrancou!” – Naquele momento, a visagem foi se elevando no ar, como que sem peso nenhum, cruzou por entre as muretas laterais da ponte (naquele tempo a ponte tinha muretas), e entrou dentro das águas do rio. Quando estava bem debaixo da ponte fincou suas estacas na areia barrenta e funda.
O corpo branco da alma penada foi se dissolvendo nas águas, e conforme a correnteza passava, o corpo branco liquefeito acompanhava as ondas até não restar mais nem uma réstia dela.
Diz que as estacas estão lá ainda plantadas, fixas debaixo da ponte. Toda vez que alguém, inocentemente resolver nadar e arrancar as estacas do seu lugar, a criatura ressurge! Para que ela vá embora novamente, deve-se mandar que ela finque as estacas no rio. Se não fincará no seu coração!

Con.te.vi!

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