quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A aparição de ferro





No tempo em que se malhava o ferro e este chingava por ser malhado, um caso muito antigo na verdade e comentado até os dias de hoje, é que passou por estas bandas uma aparição totalmente diferente das do convencional!
Um colono, senhor de muitas terras, resolveu arrendar algumas pessoas para rosar-lhe o mato, que por sinal, era de perder de vista. Apareceram seis peões para o serviço. Foi-lhes dito que começassem logo no dia seguinte bem cedo. E assim ficou combinado. Naquele mesmo dia, lá pelas tantas da tarde, apareceu um jovem pedindo poso e serviço. O senhor colono avisou que realmente estava precisando de mais um para completar o pelotão da roçada, só que para o poso teria como acomodação uma caminha velha de colchão de palha, chamada de cama turca, na estufa de fumo.
O jovem, que tinha uma fala grossa de se espantar, disse que estava ótimo, mas a única coisa que queria como pagamento fosse comida. Gostaria de comer bem em todas as horas das refeições.
O colono ficou surpreso com a proposta, mas concordou, achando até graça no tipo da conversa. Chamou sua mulher e avisou que preparasse comida aos trabalhadores, só que servisse um pouco mais para aquele jovem da voz grossa, que só pediu comida como pagamento.
A mulher, curiosa para ver quem era o dito cujo, foi espiar pela fresta da porta da estufa e, o que ela viu foi um jovem muito formoso, bonito além da conta, que trajava calça brim preta e camisa branca, muito bem limpas. Não se podia ver uma manchinha sequer. Cabelos negros compridos até o pescoço e olhos azuis bem forte, como duas pecas, ou bolicas de vidro, como queiram chamar. Um par de botas preto reluzente que dava gosto de ver seu lustro.
Passou sentado na cama à noite inteira sem pregar o olho, com uma velinha na mão, quando essa se apagava, logo acendia outra, até que clareou o dia.
Logo cedo, foi servido o café com muito reforço. Torrada, geléia, leite, requeijão, café bem forte que era pra animar os trabalhadores, pão em forma de sanduíche com mais de um palmo de largura, banha salgada com toucinhos misturado, manteiga, bolinho de chuva, queijo de fatia grossa, boi ralado ao molho seco e muita mandioca frita.
A mulher do colono realmente havia caprichado, mas na verdade, ela desconfiava que o rapaz pudesse comer muito além dos demais. E não é que ela estava mais do que certa?
O moço comia numa velocidade impressionante, devorando tudo o que tinha na mesa, a ponto de não sobrar quase nada para os demais. A mulher se apressou em fazer mais mandioca, mais bolinhos, mais tudo para os demais trabalhadores, porque se não iriam ficar sem comer. Passado meia hora, o moço se levantou sem dizer nada e foi pro roçado. Pegou a foice e descambou no mato com uma violência que parecia um louco ensandecido, uma máquina em vez de gente. Logo os outros peões vieram e puseram-se ao trabalho, mas nenhum quis se aproximar daquele sujeito esquisito. Tomaram posição de um lado do terreno enquanto o outro ficava sozinho do outro lado.
Vejam só! Passados somente quinze minutos, o grupo havia roçado cerca de quinze metros, enquanto o moço já havia roçado mais de cento e cinquenta metros. Conforme ele avançava, os demais iam ficando cada vez mais assombrados com o que estavam vendo. Em uma hora de serviço o moço já estava em uma quarta de alqueire, enquanto os demais ficavam lá para trás.
O colono veio oferecendo água para os trabalhadores. Estavam ele, sua mulher e seu filho mais velho com jarras grandes de água fresca. Todos suavam à bica pois desde cedo já fazia um calor tremendo. Quando chegou a vez do moço esquisito, tiveram uma surpresa. Não suava e nem cansado estava! Tomou somente um gole do copo que lhe foi oferecido e, sem agradecer, voltou ao trabalho com mesma energia e violência de antes.
O certo é que a família já começava a ficar assombrada com aquele sujeito. O colono por sua vez, maquinava um jeito de por fim àquela situação, só que tinha receio de se aproximar daquela máquina que não parava nunca. Tocos despedaçavam, arbustos voavam feitos pedaços de palha pra todo lado, tufos de terra esburacavam do chão e voavam longe, de forma que com duas horas de serviço, teve de ser trocada a sua foice, cuja lâmina não sobrava mais do que um toco desdentado e todo rachado.
Quando o relógio bateu meio dia, ele havia feito mais de uma quarta de chão, enquanto os demais estavam tão lá trás, queque mal podia se ver suas cabecinhas. É claro que o grupo levaria uns três dias para completar o serviço, enquanto que o moço já havia feito a metade do seu.
Se apresentou para o almoço. Notaram que não se lavou, nem foi ao banheiro. Não estava cansado e muito menos suado. Suas roupas permaneciam impecáveis, tal qual quando chegara no dia anterior. Sentou e se tramou a comer como se tivesse cem anos de fome. Quanto mais a mulher servia, mais o dito comia. Já que o prato não dava conta, a mulher lhe servia a comida numa tigela grande, mas mesmo que ela virasse toda a panela ali pra dentro, não sobrava nada, e ele, com sua voz de caverna, pedia mais!
Quando os demais homens vieram para o almoço, já devidamente limpos, encontraram as panelas vazias e o moço com a mão em outra foice novinha, indo pro mato continuar seu trabalho. O jeito foi esperar a mulher fazer mais comida. Olharam pra mesa e deu pra perceber o que meia hora antes havia tido dentro daquelas panelas: na forma um leitão inteiro, no tacho costela de gado, no fogão a lenha em duas formas, dois frangos dos bem grandes, afora os tachos de arroz, feijão, macarrão, farofa de biju, torresmo salada de tomate, alface, berinjela.
Enquanto o novo almoço saía, os homens rodearam o colono e começaram a dar-lhe conselhos de que se livrasse do indivíduo o mais rápido possível. Achavam que a situação era tenebrosa e insuportavelmente anormal. Com certeza aquilo que estava trabalhando com eles não era humano! Não era gente! Nem deste mundo!!
Após ouvir as opiniões de espanto e preocupação de cada um daqueles peões por uma hora mais ou menos, o colono pegou um machado como quem está indo ajudar no trabalho, e foi de encontro à criatura. Chegando percebeu que o terreno havia sido revirado como se por uma colher enorme. Olhou em volta... aquilo se perdia de vista, tudo revirado, o mato todo arrebentado. Se aproximou por de trás do moço e pediu uma prosa. O moço nem aí. Então falou mais alto que queria falar-lhe, mas o moço só se importava em esvoaçar galhos, tocos e terra pra todo o lado, completamente surdo. O colono com medo de chegar mais perto, com o cabo do machado cutucou-lhe pelas costas. O que sentiu foi como se tivesse encostado numa pedra muito pesada, pois o cabo não afundou nem um milímetro na pele da criatura. Tentou empurrar, mas era como se empurrasse um trator, ou outra máquina muito grande. Tomando coragem, resolveu pegar-lhe o ombro e foi jogado cinco metros para trás como se fosse um travesseiro. Meio atordoado, o colono se levantou do chão e foi aí que percebeu: O moço tanto roçava com a foice, como com os braços, e nesse movimento louco e desembestado nada parava diante dele. Foi exatamente em desses movimentos dos braços que jogou o pobre homem pra longe.
Mais decidido do que nunca, juntou o machado do chão e firmou-o com as duas mãos, sentindo-as doerem de tanta força que fazia, precipitou-se pra cima da criatura mirando sua cabeça. O machado desceu veloz e potente, como só um lenhador experiente pode descrever. O aço do machado acertou a cabeça bem no meio do cocuruto e..., por tudo o que é sagrado nesse mundo, ouviu-se um barulho de ferro batendo numa bigorna e no mesmo instante, o machado voava pelos ares levando os braços do colono com ele.
O colono grita de dor sentindo como que se levasse um choque elétrico potente e cai no chão. Com dificuldade tenta se levantar, mas está com o corpo dolorido e os braços amortecidos. Uma sombra tampa o sol a sua frente, quando levanta os olhos, o moço o está olhando com os dentes cerrados e os olhos franzidos. Com aquela voz peculiar de caverna pergunta – O que é que você está fazendo? - então o corpo do moço (ou da criatura), foi se desfazendo, evaporando, se dissolvendo em uma nevoa misturada com a luz do sol. Como se nevoa e luz fossem uma coisa só, até que sumiu de vez. Mortificado de assombro pela visão que acabara de ter, o colono se levanta e corre aos tropeções pelo terreno revirado. Logo adiante já encontra os trabalhadores e toda a sua família que também, indubitavelmente assistiram ao espetáculo.

Con.te.vi!

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