quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A pesca encantada (desesperada)


       Conta um de meus irmãos, que quando tinha seus quatorze anos de idade pediu para sua mãe que queria pescar.
Então pegou o anzol, as minhocas, colocou o chapéu de palha na cabeça e foi num rio ali próximo da casa que tinha poços dentro dele, e que dava muitos peixes tipo bagre, lambari e pintado. Mesmo porquê naquela época os jovens pescavam muito.
Mas meu irmão, cujo nome era Valtívio, resolveu não chamou ninguém por companhia. Chegando no rio pegou o anzol, colocou a isca, pendurou o chapéu no palanque de uma cerca que divisava com terreno de outro dono.
Jogou o anzol no rio. Ficou ali sozinho no silêncio, esperando qual peixe seria a vez de ser fisgado. Passou um bom tempo e ele percebeu que o silêncio era por demasiado pesado. Um silêncio tão carregado que maltratava a natureza à sua volta. Uma incomodação começou a fustigar-lhe o pescoço, depois desceu pelas costas, as pernas doíam e não havia posição que as aquietasse. Sentiu o bafo quente do ar a sua volta e percebeu que este não ventava, não refrescava, estava meio que pesado.
Quando de repente, ouviu um barulho vindo do meio do mato em sua direção. O barulho aumentava a cada segundo. Podia sentir que era algo que arrastava terra e quebrava galhos. Passado alguns momentos de silêncio total, o barulho retorna mais vivo e contínuo do que nunca. O certo é que o nosso pescador estava morrendo de medo e não conseguia distinguir de que lado estava vindo aquele barulho de sei lá o que arrastado, se tronco, se pedra, se “boiúna” ou o próprio pé do capeta...
Num dado momento, percebeu que as copas das moitas e dos arbustos estavam se movimentando violentamente e vinha na sua direção. Algumas árvores menores dobravam ou desapareciam por completo do seu campo de visão. Rapidamente se joga no barranco do leito do rio e rola pra dentro da água. Deixando só a cabeça de fora, espiando o mato, foi quando viu!...
Dentre uma rocha grande e uma árvore grossa, cujo pé estava escondido por densa ramagem, uma e outra estavam distante mais ou menos uns cinco paços de um homem grande, passou um paredão negro e escamoso que a seu ver parecia tão grosso que caberia um boi adulto lá dentro. A cobra descia pela mata acompanhando o leito do rio.
Era tão comprida que levou sete minutos para terminar sua passagem por de trás da rocha e da árvore. O susto foi tão grande que ao perceber já estava do outro lado da cerca numa disparada desesperada. Deixou pelo caminho o chapéu, o anzol, as minhocas, os sapatos..., e mais alguma coisa por certo.
Chegando em casa contou o ocorrido num desespero só. A família e os amigos que também foram chamados para ouvirem ficaram abismados. Ninguém queria acreditar, mas o desespero do pobre homem dava dó.
No outro dia fomos buscar o chapéu e todo o resto que havia sido abandonado no momento da fuga, mas aí..., nós vimos o rastro!!
Por onde passou a tal cobra, ficou um rastro limpo, sem nenhum matinho, num formato duma meia manilha perfeita, e até socada pois dava pra perceber que amassou a terra. Deveria ter pelo menos meia tonelada de peso, e mais, naquele corredor redondo no chão cabia duas pessoas adultas de lado tranquilamente.
O rastro enorme seguia em direção ao rio, quando alcançou uma parte larga, bem na curva, dava pra perceber que enfiara a cabeça onde havia um dos poços e sumiu-se ali dentro, seu imenso corpo desaparecendo rio adentro.
Nunca mais, nem pescador, nem vizinho, nem caçador, relataram algum aparecimento do tipo. Mas volta e meia sabe-se que bem debaixo do rio, bem naquele fosso que ainda está lá, o rio treme! (Já sabem que cobra era?)
(Doris)

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