quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os gogós da fala (conto de encantamento)


No tempo que Piên só era “piên”, e que o corvo cantava no gogó do urubu, tinha um fazendeiro extremamente rico e extremamente sabido que andava por estas regiões. Tudo o que se lhe era perguntado respondia na maior facilidade.
Esse fazendeiro mantinha em seu quarto uma gaiola com um casal de periquitos. Os passarinhos eram tão brancos que podia-se confundir facilmente com flocos de lã. Toda vez que os pobres bichinhos davam cria, o fazendeiro mandava decapitar as crias e comia- lhes o gogó. Essa estranha atitude seguia a muito tempo até que o mordomo da casa resolveu investigar o por quê do seu senhor agir daquela maneira.
Um dia levando três gogós cozidos para seu amo, escondeu um, entregando-lhe somente dois, o fazendeiro comeu sem fazer conta. O mordomo comeu o outro e este não lhe tinha chegado ao estômago quando, não se sabe como, ouviu uma conversação pela janela da cozinha. Foi logo verificar o que era a qual foi a surpresa encontrou um grilo e um Louva-a-Deus batendo papo. Ora, vejam só! Os gogós daqueles filhotes faziam entender as línguas dos animais.
O mordomo permaneceu calado, não contando nada a ninguém para manter segredo. Mas um dia, o patrão esqueceu seu relógio em cima da cadeira de palha na varanda onde costumava tomar chimarrão, veio um peru, deu umas bicadas no relógio e saiu com ele enroscado no bico. O patrão logo pediu para que seu funcionário de mais confiança, que era justo o mordomo, desse um jeito de achar o tal relógio perdido.
Este saiu aflito procurando pelo relógio a onde lhe dava na telha. Procurou por dentro da casa, ao redor da varanda, pelo pátio, e nada de encontrar. Quando passava pelo cercado das aves escutou as galinhas no maior dos cocorécos cacarejando e caçoando do peru que não conseguia se livrar dum enfeite ridículo no bico. Indo verificar o que era deu com o relógio enroscado e um peru desesperado. Entregando o relógio a seu dono, este ficou imensamente grato, porque além de ser um relógio todo banhado a ouro, havia sido um presente do seu pai, quando este ainda era moço.
Perguntando o que queria de recompensa, o mordomo falou que somente uns dias de folga já bastariam para que pudesse visitar sua família que morava longe. O patrão deu- lhe um cavalo, roupas novas e muito dinheiro para a viagem e para depois da viagem.
Andando numa estrada escura escutou dois esquilos berrando por socorro. Foi verificar e constatou que haviam sido capturados por uma arapuca de passarinho. Assim que os soltou, saíram pulando de alegria e lá de cima da árvore disseram que o dia que o mordomo precisasse era só pedir que eles viriam ajudá-lo.
Uma hora de cavalgada mais adiante, escutou um berreiro de fazer dó. Desmontou e foi verificar o qual encontrou dois pardais brigando e puxando uma minhoca cada um de um lado. Berrava o pardal da direta e berrava o pardal da esquerda, e também berrava de desespero a pobre coitada da minhoca. O mordomo pediu que parassem com aquela bagunça e resolvessem a questão sem se prejudicar um ao outro, mas os pardais reclamaram que estavam morrendo de fome. A minhoca protestou reclamando que ela nunca fez mal a ninguém por isso não deveria morrer. O mordomo disse que resolveria o empasse rapidinho. Foi até o cavalo e tirou duma bolsa um saquinho de sementes de milho de muito boa qualidade que pretendia levar para seus pais velhinhos plantarem. Deu para os pardais comerem até que estes encheram o papo e empanturraram as barriguinhas. Os pardais saíram voando e agradecendo que um dia iriam recompensá-lo. A minhoca fez um buraquinho na terra e foi-se embora prometendo contar do livramento para todas as suas amigas.
Chegando na casa dos seus velhos, encontrou por lá uma moça muito linda e maravilhosa que fazia companhia ao casal. Logo se apaixonou perdidamente. Esperou por um momento em que a moça estivesse sozinha e foi se declarar, o que a moça lhe disse que ela não era muito fácil de se dobrar. Seu coração era teimoso feito mula xucra e por isso ele teria que provar merecer seu amor.
Então ela lançou sua primeira prova: se o mordomo secasse um banhado que havia atrás da casa, e não ficasse nem pocinha de lama molhada, ela pensaria em casar com ele.
Nosso jovem mordomo se desesperou com aquela exigência absurda e tamanha ousadia.
Uma minhoca escutou a conversa e contou pra sua amiga mais próxima, que contou pra outra, que passou pra outra, até que chegou naquela em que havia sido ajudada. Combinaram em um batalhão delas irem socorrer o mordomo e durante toda a noite, encheram o banhado de buraquinhos até que toda a água do lago secou. Pela manhã quando o mordomo foi se preparar para o serviço encontrou tudo seco! As minhocas deram tchau e sumiram.
Logo em seguida a moça chegou para conferir o serviço e levou uma surpresa tremenda, que amoleceu-lhe as pernas.
Então ela lançou sua segunda prova: se o mordomo limpasse os cinquenta pés de avelãs que tinha no pomar da fazenda, ela pensaria em casar com ele.
O mordomo foi até o pomar de avelãs e começou a reclamar sua lástima quando um esquilo lá de cima escutou. Sumiu de vista rapidinho e com meia hora volta acompanhado. Logo começou a chover uma tempestade de avelãs que cobriram o chão todo do pomar. Um exército enorme de esquilos desceu e carregou cada um a sua avelã até encherem o paiol deste quase vir abaixo.
Agora era ela que começava a se apavorar.
Então ela lançou sua terceira prova: vou até o vale mais baixo deste terreno onde se encontra uns cupinzeiros abarrotados de formigas. Darei machadadas em todos eles. Você deve catar todas as formigas e dar fim nelas até terminar o dia, senão nada feito. Enquanto ela ainda falava, um pardalzinho passou voando por cima de sua cabeça e escutou. Quando ela começou a dar machadadas no primeiro cupinzeiro, logo uma nuvem de tapar o sol estava sobre eles. Choveu pardais de todo lado e comeram todas as formigas. Foi assim no segundo, no terceiro..., e quando ela terminou o ultimo, já não tinha nenhuma formiga mais pelo vale.
Ela vendo que a própria natureza se encarregava de ajudar o jovem mordomo, seu coração se quebrantou e caiu de paixão por ele.
O jovem mordomo voltou para casa do seu patrão com a nova esposa e riquíssimo. Rico de felicidade.

Con.te.vi!

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