quinta-feira, 10 de setembro de 2015

IARA


Na época em que os índios tomavam conta de toda a terra, tomavam conta de todas as Américas, e olha lá se não dominavam muito mais ainda, naquele tempo existia índios muito forte, muito experiente na caça e na guerra. Conheciam como ninguém a mata, os rios, as montanhas. Sabiam e não temiam bicho algum, seja grande, forte ou feroz. Da terra ou das águas, não temiam nada.
Existia um ritual de passagem para os jovens, quando se tornavam finalmente como adultos e guerreiros de verdade. Amarrado numa árvore, o menino candidato a valente da tribo, tinha que deixar “tanajuras” subirem sobre seu corpo. Os índios mais velhos ficavam vigilante para não deixar que formigas entrassem em seu nariz e ouvidos. Os olhos e a boca era por conta do indiozinho valente. Tinha de ficar assim pelo menos meio dia mas, havia meninos que conseguiam ficar quase o dia todo. No outro dia já era considerado adulto e guerreiro valente. Aqui existe um mistério que aprendiam com o ritual: quanto mais medo, mais as “tanajuras” mordiam. Quanto mais calmo e valente, mais calma ficavam as formigas.
Também naquela época existia uma índia chamada IARA, que não passou pelo ritual para ser considerada adulta, porque era mulher. No entanto guerreava de igual para igual com os homens. Em tudo que ela competia com algum guerreiro, sempre vencia. Quando os guerreiros saiam para caçar, ela saía junto e demonstrava uma prática ferrenha não perdendo caça alguma. Com corridas velozes, flechas certeiras, força sem igual, ia deixando seus companheiros homens admirados e com vergonha de sempre perderem para uma mulher. O tempo foi passando e a admiração dos guerreiros foi se tornando em em inveja e ira. Mas os que mais se sentiam envergonhados era seus próprios irmãos. Quatro guerreiros fortes e valentes que não se conformavam com a humilhação que sua irmã lhes causava. Eram os quatro e a IARA filhos do Pajé da tribo.
Uma noite estava IARA deitada na praia do rio Solimões contemplando Jaci, que para os índios é a lua, contemplava a beleza do luar tremelicando seu reflexo na água, quando três irmãos dela saíram da mata correndo com punhais na mão, tentavam-lhe fazer uma emboscada. Pensando rápido, IARA se jogou na correnteza do rio que descia cada vez mais velos de encontro com outro rio ainda mais violento que é o Rio Negro.
Nesse encontro das águas frias e barrentas do rio Solimões e as águas quentes e negras do Rio Negro, deslizam lado a lado suavemente formando um terceiro rio, o Rio Amazonas, que segue sem misturar suas águas, por quilômetros adiante.
A índia nadou o mais rápido que pode para o meio do rio onde é bastante fundo e perigoso. Como nadava muito melhor que seus irmãos, não teve medo. O problema é que seus irmãos também sabiam nadar bem, e foram atrás dela,com punhais presos à boca. Por mais que ela nadasse de um lado para o outro no meio do rio, afundasse e voltasse, cruzasse do outro lado, que quase não se via a margem a não ser por umas copinhas de árvores lá adiante, eles estavam determinados a matar sua irmã ali mesmo e nunca mais sofrer humilhações.
Num desses mergulhos ela sumiu de vista dos guerreiros, pois conseguia segurar o ar nos pulmões por muito tempo, coisa que nenhum deles conseguia. Por debaixo da água, nadou até encontrar os pés de um deles e agarrou-os com toda força que tinha, puxando para baixo. Foi afundando e arrastando o índio até que tocaram o chão do rio lá em baixo. Ficou agarrada em suas pernas impedindo que ele voltasse para respirar até que se afogou.
Voltou lá pra cima, respirou várias vezes e afundou de novo, agarrando as pernas de mais um e arrastando lá pro fundo do rio. E assim ela fez até que não sobrou mais nenhum. Saiu do rio assustada e com muita raiva por tentarem matá-la.
Chorando e com mágoa no coração, voltou para sua tribo e se jogou no chão da sua oca aos prantos de choro. Mas não demorou muito, escutou uma buia que vinha lá de fora, no pátio da aldeia. Quando saiu para ver o que era, a tribo inteira havia cercado a oca em que ela estava e vinha fechando o cerco cada vez mais.
Dos quatro irmãos, um ficou escondido na mata enquanto os outros três tentaram matar IARA, quando ele percebeu que os outros haviam morrido, retornou correndo e contou ao seu pai, o pajé da tribo. O pajé possuído por uma ira tal, convocou toda a tribo para pegarem a índia assassina e a amarrarem.
Depois que a amordaçaram, ergueram-na acima de suas cabeças e levaram a pobre desesperada IARA até o encontro do Rios Negro com o Solimões para ser jogada ali. Só que bem onde seria jogada, exatamente no meios dos dois rios, é aonde acontece a mágica da natureza! É bem ali que as águas não conseguem se misturar! É bem ali que a luz da lua se divide. Metade dela luz branca, metade del luz negra. É bem ali que nasce o Rio Amazonas, o maior do mundo.
Quando jogaram ela no meio do encontro das águas, os peixes dos dois rios vieram grudando em suas pernas e carregando ela cada vez mais para baixo, cada vez mais para o fundo.
À medida que se ia afundando, suas pernas iam grudando uma à outra, e quanto mais os peixes puxavam seus pés, mais esticados ficavam, até que se tornaram como barbatanas. As cordas finalmente escorregaram do seu corpo e ela pode sair nadando tal qual um peixe, ou melhor “uma peixa” , para bem longe dali.
Depois daquele dia, a partir daquele momento, IARA passou a ter uma mágoa profunda dos homens. Uma raiva escondida pela sua beleza de sereia. Quando um pescador topar com ela, é certo que não poderá mais se livrar dos seus encantos. Se a ver, simplesmente ver, ficará abobalhado com o feitiço dos seus olhos. E por mais que feche os olhos e fuja. Sua imagem ficará grudada na sua cabeça enlouquecendo-o, até que volte ao rio encontrar com ela.
Ela te levará para o fundo do rio. Nunca mais te encontrarão. Nunca mais te verão. Dizem uns que ela te levará como noivo, e casará contigo, e será um peixe para serviços d ela.
Mas na realidade é que ela afoga suas vítimas agarrando-os pelos pés e puxando para o fundo do rio. Lá ela devora os homens, ela come todinho eles, de pura raiva.

Eber

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